*Imagem da crônica é obra do artista plástico Vando Figueiredo
Fortaleza, tu não gosta de marasmo, né? Fiquei pensando comigo sobre o tanto que você se modificou nos últimos cinco anos, quando botei o Cidades Invisíveis no mundo, que versa sobre as minhas lembranças contigo e também de algumas pessoas. Nem é só você que ficou diferente. Eu também mudei, assim como alguns personagens, inanimados e vivos, que citei no livro. Quanta vida cabe em cinco anos? Muita! Então, avalie em 300… Vou me ater ao que contei no livro, para contextualizar sobre essas coisas novas que vem acontecendo com a gente.
O Mara Hope continua sendo meu amor e um símbolo da cidade, mas nos surpreendemos porque um pedaço dele arriou. Já eu pensava que estava à beira da morte, acabada, cheia de ferrugem. Me dei conta que tenho vida suficiente pra me surpreender. Voltei pra academia, os quilos extras ainda estão aqui, mas pelo menos estou mais flexível e saudável, inclusive da mente.
Com a reinauguração da Ponte dos Ingleses, já dei umas voltas por lá com umas amigas que conheceram esse ponto turístico antes da reforma. Também dei uns beijos, olhando o céu estrelado e as nuvens. E chorei de raiva algum tempo depois porque sigo a emocionada de sempre.
O Farol velho ficou novinho em folha, todo restaurado e pintado. No entanto, como falta abrir e colocarem uma programação legal para ele, ainda não me animei para visitar. Já a Estação das Artes, que me fez chorar de saudade durante a pandemia, é um grande caldeirão cultural, com música, comidinhas e muita arte. Virou meu point de conforto e recriei minhas lembranças nessa nova fase. Você sabe, né, Fortaleza marota? Inaugurei um novo tempo da minha história ali no meio dos quadros da pinacoteca e nos corredores da velha e nova Estação. Mesmo com essas lembranças renovadas, bem que poderiam ter colocado a estação central mais perto. Continuo achando longe ser em frente ao cemitério.
O fim do mundo ainda não chegou, como eu previa em 2001 na crônica do livro, mas o presidente Trump continua ameaçando antecipar. Desde que assumiu a presidência dos Estados Unidos, parece que está se coçando todo pra lançar uma bomba atômica. Chega dá um frio na barriga. Tem horas que penso que o Anticristo do Nostradamus é ele mesmo.
Mas, mudando de assunto, faz tempo que não ando na rua Floriano Peixoto porque a minha mãe cancelou a conta no Bradesco. E depois que a padaria que substituiu o Dudas Burguer foi notificada pela vigilância sanitária – foi um escândalo com direito a vídeos bem nojentos – desisti de comer por lá. Também aprendi a fazer capuccino e café cremoso em casa, o que diminuiu minha vontade de provar os industrializados. Fora que se eu tomar de noite, o sono vai embora. É a idade chegando…
As ruas 24 de maio e a General Sampaio continuam do mesmo jeito, assim como o Museu das Secas, que permanece fechado, você sabe. Talvez lamente, como eu… Nem tem mais o pó de guaraná perto do sebo do Geraldo. Nem o Geraldo livreiro está mais na sua cadeira do sebo porque partiu dessa vida no ano passado. O querido cinéfilo e jornalista, José Augusto Lopes, também partiu para a eternidade, assim como o senhor R. Ximenes que tanto me ensinou sobre a vida, sobre Fortaleza e sobre o Montese. Outro que foi embora definitivamente de Fortaleza porque foi tragado pela morte foi o abusador de trabalhadores domésticas que eu tive a infelicidade de entrevistar. Esse, já foi tarde.
Impressionante perceber que o cineteatro São Luiz voltou a ser um dos lugares mais significativos nessa nova fase, sua e minha. Ri e aplaudi o cinema nacional com O Agente Secreto em pleno sábado à tarde. Talvez a última vez com aquele cinema lotado tenha acontecido ainda na exibição do Titanic, em 1997. Além dos shows com Rodger Rogério, Zizi Possi e tantos outros.
Outra novidade é que entendi porque o cronista Milton Dias nunca encontrou um mar como o da praia de Iracema. Virou meu passeio tradicional de domingo tomar banho bem cedo nas piscininhas naturais entre a ponte velha e a nova, onde hoje chamam de Havaizinho. O mar é morno, delicioso. Só fui aprender porque o Mara Hope me apresentou o melhor anfitrião das águas daquela região. Você, dona Fortaleza, também me deu um amor de presente.
Temos nossos mais de 35 anos de história juntos, não é, Fortaleza? Continua fazendo tua harmonização e teus tratamentos estéticos, mas se lembra da tua essência. Não precisa querer imitar o Balneário Camboriú com tanto super prédio. O mundo inteiro sabe que tu é super rica e concentra renda demais. Te preserva que ainda tem muita gente querendo saber da tua história, assim penso e tenho esperança. Beijos e muitas felicidades nessa data tão especial!








































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































