Sem familiares no Direito, um dos advogados criminalistas mais renomados de Fortaleza, Leandro Vásques, construiu carreira marcada pela defesa do Estado Democrático de Direito.
Em nossa entrevista, relembra influências, o papel da família e a missão de garantir a presunção de inocência mesmo nas causas mais impopulares.
Uma de suas lembranças mais queridas remonta à infância, quando foi impulsionado pelos pais, os professores Antônio e França Vasques, a sempre priorizar os estudos. Foram eles que o apresentaram a Sherlock Holmes — seu despertar para o Direito.
Lapidado por 15 anos pelo preceptor Clayton Marinho, dividiu tribuna com nomes como Ernando Uchoa, Evaldo Ponte, Jurandy Porto, Pádua Barroso, Clayton Marinho, Moacir Macedo de Albuquerque, Vasco Damasceno Weyne, Cândido Albuquerque e Paulo Quezado.
A família é seu alicerce para equilibrar a intensidade da profissão. Fora dos tribunais, prioriza os filhos, a leitura, o violão em saraus com amigos e as viagens em família. Vem conhecer mais sobre esse grande advogado.
Você tem décadas de experiência no Direito e hoje é um dos advogados mais renomados de Fortaleza. Como esse caminho teve início?
Minha trajetória no Direito começou de forma bastante desafiadora, sobretudo pela ausência de uma estrutura familiar na advocacia que pudesse facilitar esse início. Sempre fiz questão de destacar que não tive “agasalho”, e isso, embora tenha tornado o percurso mais árduo, também foi determinante para a construção da minha identidade profissional. Desde cedo, compreendi que precisaria me dedicar de forma intensa, com disciplina e constância, para conquistar meu espaço. Ao longo dos anos, enfrentei dificuldades naturais de quem começa sem suporte, mas cada obstáculo contribuiu para o meu amadurecimento. Foi um processo de construção gradual, pautado no trabalho sério, na busca contínua por conhecimento e na consolidação de uma atuação firme na advocacia criminal. Principiei sendo muito estimulado por meus amados pais, professores Antônio Vasques e França Vasques, que me sugeriam livros da literatura brasileira para ler, especialmente nas férias escolares. Muitas das vezes até me davam uma “bonificação” na mesada para tal fim, até que fui apresentado por eles à obra do escritor escocês Árthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, que foi um divisor de águas em minha vida….ela me despertou pro Direito…bem mais adiante, o destino me foi generoso ao me permitir, após estagiar no Tribunal de Contas dos Municípios, no Tribunal de Justiça e na Defensoria Pública, conhecer meu preceptor, o notável e combativo criminalista e orador nato, Dr Clayton Marinho, que me lapidou por 15 anos, tendo sido seu discípulo e chegando a ser seu sócio.
Na profissão, quem eram os seus principais modelos? De que forma esses grandes juristas te influenciaram a ser o grande advogado que você é hoje?
Durante a minha caminhada, tive a oportunidade de conviver com profissionais que exerceram influência significativa na minha formação. Entre eles, destaco o criminalista Clayton Marinho, que teve um papel muito importante no meu desenvolvimento, contribuindo diretamente para me lapidar enquanto advogado. Mais do que o domínio técnico, essas referências foram fundamentais para a construção de valores que considero inegociáveis na advocacia. Aprendi, ao longo dessa convivência, a importância da postura, da ética e do compromisso com a defesa. São ensinamentos que transcendem o conhecimento jurídico e que moldam a forma como me posiciono profissionalmente até hoje.
O mestre Clayton Marinho grafou de forma indelével e com letras maiúsculas sua jornada como advogado virtuoso e destemido dos auditórios criminais de nosso Estado e por jogar luzes ao fundar, junto com alguns pares de então, aquela que veio a se denominar advocacia criminal romântica alencarina….Tive a honra de atuar com grandes expoentes de nossa advocacia, ora em tribunas iguais, orando tribunas opostas como Ernando Uchoa, Evaldo Ponte, Jurandy Porto, Pádua Barroso, Clayton Marinho, Moacir Macedo de Albuquerque, Vasco Damasceno Weyne…alguns deles já hóspedes do Oriente eterno, e também tive o privilégio de atuar com advogados ainda atuantes como Cândido Albuquerque e Paulo Quezado, com os quais colhi lições preciosas.
Qual a principal missão do advogado a seu ver? O que mais te encanta nesse caminho profissional?
“Nenhum receio de desagradar o magistrado ou a qualquer autoridade, nem de incorrer em impopularidade, deve deter o advogado no exercício da profissão”, estabelece o Estatuto da Advocacia. Nunca em vão a lembrança desse verdadeiro princípio para a atuação do defensor.
Em nosso Estado Democrático de Direito, para que se aplique uma pena a alguém pelo cometimento de algum crime, é imprescindível que haja um processo e um julgamento. Nesse cenário, além da participação do juiz e do promotor de justiça, é necessária a atuação de um advogado. Faz parte do jogo. Não seria possível discriminar casos que merecem ou não defesa – tampouco admitir processos em que só atuassem juízes e acusadores. Como garante a Constituição, “o advogado é indispensável à administração da justiça”.
Processos judiciais devem ser vistos como instrumentos de efetivação da justiça – e não como meros obstáculos para a satisfação de um deturpado senso de justiça prenhe de ódio e intolerância. De tempos em tempos, a imprensa volta seus holofotes para um caso que causa indignação e revolta em uma sociedade que se vê reiterada e violentamente açoitada pela criminalidade. Nesse contexto, o advogado vê-se obrigado à “absurda” missão de defender os direitos de seu constituinte. O escritório de advocacia torna-se a última trincheira exercício do direito de defesa, mesmo daqueles investigados por fatos tidos como graves e repugnantes.
Para Marcio Thomaz Bastos, “nesses momentos tormentosos, é saudável revisitar os cânones da nossa profissão. Como ensinava Rui Barbosa, se o réu tiver uma migalha de direito, o advogado tem o dever profissional de buscá-la. Independentemente do seu juízo pessoal ou da opinião publicada, e com abertura e tolerância para quem o consulta. Sobretudo nas causas impopulares, quando o escritório de advocacia é o último recesso da presunção de inocência.
”A advocacia é, certamente, uma das profissões mais incompreendidas na sociedade, principalmente quando se tratam de causas impopulares, isto é, quando a opinião pública realiza um julgamento sumário da situação e condena aqueles acusados de algum malfeito de larga repercussão. Nesse eterno déjà-vu de notícias repulsivas – de crimes de sangue ou do colarinho branco – é que residem a drama e a glória do defensor, “nesse pisar de lama sem salpicar os sapatos”, como disse Laercio Pellegrino.
Tal ambiente é brilhantemente descrito por Antoine Garapon: “O direito começa aí a ser esquecido, na transgressão da regra em nome de uma pretensa moral superior. A justiça passa a ser feita em praça pública, fora da mediação da regra e de um espaço adequado à discussão, quer dizer, sem o auxílio de um profissional sensível e intelectual”. Trata-se, de acordo com o jurista francês, de “alquimia duvidosa entre justiça e mídia”, que “assinala uma profunda desordem da democracia” e “desmonta a própria base da instituição judiciária, abalando a organização ritual do processo”.
O insigne jurista Haroldo Valladão escreveu passagens magistrais em defesa dos advogados, como em discurso pronunciado perante o Instituto dos Advogados Brasileiros, em 1951, ao afirmar:
“Em verdade, nós os advogados, nos confundimos, na defesa do direito violado ou periclitante, com os próprios ideais de Justiça de liberdade e de independência. Lê-se no Sermão da Montanha: ‘Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor?
Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens’. (Mt 5.13) Assim é a advocacia para a sociedade, assim é a liberdade e a independência para os advogados. Se perdemos a liberdade e a independência, para nada mais prestamos. Será como o sal que derrancou, que perdeu a força, que se corrompeu. Deixamos de ser advogados. Se a advocacia desaparece, a sociedade torna-se inútil e insuportável, campo exclusivo das ditaduras e dos tiranos. Sem o sal da advocacia perecerá a Justiça, decompor-se-á a vida social”.
Para Evandro Lins e Silva, considerado o advogado do século XX, a advocacia é “uma profissão cujo objeto é o próprio homem”, não se reduzindo “a uma simples técnica, mas liga-se também, intimamente a uma ética superior, fora da qual o desempenho profissional perde todo sentido e pode converter-se num instrumento de degradação humana”.
De todo modo, não se pode confundir a pessoa do acusado com a do advogado, como se este fosse cúmplice daquele apenas por não contribuir para o aniquilamento de sua imagem e das suas escassas chances de defesa.
Se um dia, caro leitor que avalia estas linhas, você ou alguém de sua família sentar-se episodicamente no desconfortável banco dos réus, quem o amparará?
Certamente precisará de um advogado e quererá o mais preparado e aguerrido, de modo que faça valer o seu direito à liberdade, por mais que as outras pessoas o julguem imerecido.
Alguma coisa mudou em você após você ter filhos e constituir família? Como você definiria hoje o papel da sua família em sua vida?
A constituição da minha família representou uma transformação profunda na minha forma de enxergar a vida e a própria profissão. A paternidade ampliou minha percepção sobre responsabilidade, não apenas no âmbito pessoal, mas também profissional. Passei a valorizar ainda mais o equilíbrio entre essas duas esferas, entendendo que o exercício da advocacia, por mais exigente que seja, precisa coexistir com a presença familiar. Minha família é, hoje, o meu alicerce. É nela que encontro suporte, motivação e sentido para tudo o que faço. Essa base sólida me permite enfrentar os desafios da profissão com mais clareza e serenidade.
Quando você não está trabalhando, como gosta de gastar o seu tempo?
Nos momentos em que não estou dedicado à atividade profissional, procuro priorizar o convívio familiar, especialmente com meus filhos. Estar presente, participar da rotina e compartilhar esses momentos é algo que valorizo muito. Além disso, gosto de atividades que me permitam desacelerar, como a leitura e a música, tocando violão, reunindo amigos para saraus musicais. Também considero importante o convívio com amigos, que contribui para manter o equilíbrio emocional e renovar as energias. Mas minha principal válvula de escape é viajar….nada me alegra mais do que viajar em família…seja pra que destino for…Esses momentos são essenciais para sustentar a intensidade que a advocacia criminal naturalmente exige.
Nós indique um filme, um livro e uma série.
Filme: O Poderoso Chefão, dirigido por Francis Ford Coppola e baseado na obra de Mario Puzo, é uma escolha emblemática. Muito além da narrativa sobre a máfia, o filme aborda poder, lealdade, justiça paralela e dilemas éticos profundos, temas que dialogam diretamente com o Direito Penal e suas zonas mais complexas.
Livro: Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, é uma leitura essencial. A obra mergulha na psicologia do crime, explorando culpa, consciência e punição sob uma perspectiva filosófica intensa. É um clássico que ultrapassa o campo jurídico e alcança a compreensão mais profunda da natureza humana.
Série: Better Call Saul, criada por Vince Gilligan e Peter Gould, oferece um retrato sofisticado da construção de um advogado criminalista e dos conflitos éticos que permeiam a profissão.
A série se destaca pela forma como apresenta estratégia, reputação e as consequências das escolhas ao longo da carreira.Essas três obras têm em comum a capacidade de ir além do crime em si, explorando as motivações, fragilidades e complexidades humanas: um olhar indispensável para quem busca excelência na advocacia criminal.






















































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































