Você consegue ouvir os sons de Fortaleza? Se seu ouvido for bem apurado e for cedo da manhã, você poderá identificar até mesmo os pássaros. Serão rolinhas ou pardais? Um sibite?
Sou de um tempo em que os fones de ouvido já tinham sua popularidade. Os walkmans estavam na cintura ou na bolsa dos adolescentes. Mas, hoje, vejo que passaram de populares para quase unanimidade nos ouvidos de quem passa. Você escutar sertanejo, funk ou um forrozão bem alto em cada esquina não é assim tão agradável. A não ser que você goste dos estilos. Porém, se você está sempre com fone, não vai perceber as nuances dos lugares. Nem as conversas paralelas inspiradoras, que podem muito bem render um texto ou mesmo umas boas risadas, especialmente dentro do ônibus.
Aqui, acolá, nas muitas viagens de ônibus e trens que fiz entre a Caucaia e Fortaleza, usava meus fones. No entanto, eles quebraram e – que bom – porque foi por causa disso que uma mulher conversadora puxou papo comigo. Era perto de oito da manhã e ela estava atrasada para o serviço. Era empregada doméstica em um daqueles apartamentos chiques da Avenida Beira-Mar. Estávamos no Circular 1. Nesse tempo, eu já trabalhava na coluna social e imaginei que ela poderia trabalhar na casa de alguém que eu conhecesse. Preferia não ter sabido daquela história.
Ela, com uma voz bem alvoroçada, me disse que não aguentava mais aquele serviço. E não era por ser pesado, mas pelos assédios do patrão. Perguntei pela idade do sujeito e ela me disse que ele tinha mais de 80, mas era forte. Queria passar a mão em todas as empregadas, tinha sido avisada pela mais antiga da casa. Eram três – uma para passar roupas, outra para cozinhar e a da faxina, que era a sua função. A que lhe avisou sobre as taras do patrão foi a passadeira.
Quando isso acontecesse, ela disse que reagiria e sairia sem dar explicação, mas não foi bem o que houve. Ficou paralisada, com vergonha, mas precisava do dinheiro.
Chegou a contar para a patroa, esposa do velho nojento há mais de 50 anos e não deu em nada. A coitada da senhora vivia chorando pelos cantos porque ele também abusava dela e gastava muito do dinheiro que eles tinham com prostitutas, fazia questão de contar para ela, inclusive. Antes dela descer, perguntei o nome dele. Infelizmente, conhecia ele sim das colunas sociais. Porém, nunca tinha visto pessoalmente.
Anos depois, para ver como é o destino, um pregador de peças, tive que entrevistá-lo. Quase fiquei sozinha com aquele velho. Aquela desgraça era dona de um monte de imóveis históricos, era gente importante mesmo, mas tinha uma passagem na polícia por homicídio também. Deu-me um frio na espinha, mas foi o jeito.
Quando vi a secretária dele, que tinha mais de 40 anos de serviço, fiquei pensando que talvez ele tivesse assediado-a também. Que medo e nojo senti naquele dia! Tinha até um quarto com cama e tudo, do lado do escritório, para que o velho pudesse tirar a sesta da tarde. Acho que não devia servir só pra isso.
Uma pena que essas histórias tristes me sigam por onde eu vou. Essas, eu tenho vontade de tornar visíveis para que se acabem as impunidades. Mas, a vida não é assim. Talvez esse abusador só tenha parado de cometer seus crimes quando morreu. Pelo menos embaixo da terra não tem mais ninguém para sofrer nas mãos dele. Infelizmente, as marcas permanecem nos vivos.
*Esse texto faz parte do livro Cidades Invisíveis, publicado pela autora em 2021








































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































