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Carta para Gisele

Talvez por conhecer muitas histórias como a sua, mas que tiveram um fim menos triste, seu caso apareceu tantas e tantas vezes, com detalhes, nas minhas redes sociais.

Você linda, jovem, com uma filha pequena, teve o azar de cruzar o caminho com um oficial militar narcisista. Não sei o que ele fez para te conquistar, mas posso imaginar.

Um cara experiente, com muito poder dentro da corporação, certamente conhecia os caminhos para deixar uma mulher fascinada. Deve ter te tratado como uma princesa, prometeu que qualquer desejo seu seria cumprido, que seria um pai para sua filha e seu porto seguro. O perfeito homem provedor, alfa, como ele mesmo se classificava, que se antecipa a qualquer necessidade. Certamente, algum discurso religioso deve ter sido acrescido e, você, talvez, sem tanta experiência, acreditou na história do príncipe encantado.

Não deve ter demorado muito para perceber que era uma farsa. Talvez poucos meses depois do casamento ou antes, ele tenha te dado o primeiro grito. Quando será que te proibiu de usar maquiagem ou perfume? E a primeira agressão, quando será que veio?

Você pensou que era insegurança dele e que tinha razão. Você era mais jovem, bonita. Quem sabe, imaginou: vou obedecer para evitar problemas. Mas, ao contrário do que você pensou, a escalada da violência só foi crescendo. Cada vez mais exigências, mais controle, mais ciúmes. Até da própria filha, com quem ele, de orgulho ferido, disputava a atenção. Uma criança de sete anos!

Depois, soube das traições. O ciúme talvez fosse um reflexo do que ele mesmo fazia escondido. Por isso, o temor e a insegurança. Geralmente, é assim.

Não sei o que você avaliou para continuar nessa casa, mesmo separada de fato, mas talvez não tenha se sentido segura para caminhar sozinha. Afinal, ele era o provedor, com um bom salário, bem melhor que o seu. Como seria viver sem essa ajuda, ainda mais com uma filha pequena? Como cuidaria dela, daria conforto e continuaria trabalhando? Você pediria ajuda à sua família, mas mesmo assim seria dificil. E sendo da mesma corporação? Como fugir desse controle doentio, como divorciada? E se ele, usando do poder como oficial, te prejudicasse como profissional?

Para piorar tudo, ele gostava de duvidar da sua capacidade. Te chamava de burra, especialmente quando falava da separação, porque no alto da sua arrogância, se exaltava como homem, via qualidades em si que só uma pessoa delirante poderia ver. Uma lista longa de adjetivos ao seu favor. O homem perfeito que ele se achava. Tudo isso devia te deixar confusa. Uma mentira repetida muitas vezes entra na mente da gente. É comum duvidar depois de ouvir tanto que você não vai conseguir.

Aqui do outro lado, a gente ainda não sabe como se deu a sua partida, se a última relação foi mesmo consensual – eu duvido muito – e o que aconteceu depois. Teve luta corporal e, no fim, um tiro. Aquela velha história de que se não vai ser mais minha, não vai ser de mais ninguém.

No entanto, mesmo chamando desembargador e coagindo colegas, o suicídio mentiroso caiu por terra. Demorou um tempo, mas a história real apareceu. Porém, infelizmente, isso não vai fazer homem machista rever suas atitudes. Os casos de estupro e feminicídio só aumentam.

Nem sei se esse oficial vai permanecer preso mesmo. Os colegas de farda se sensibilizaram com o seu caso. Os tapinhas nas costas e os abraços chegando na prisão traduzem direitinho que o caminho é muito longo ainda na luta das mulheres contra a morte por feminicídio. Que Deus nos proteja, aqui do outro lado, enquanto isso não acontece. O caminho é longo e árduo, mas não vamos desistir. Estamos muito vivas e somos muitas. Sua memória não vai ser esquecida.

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Por minha vasta convivência profissional durante anos com a sociedade de Fortaleza, aprendi a captar notícias em suas mais preciosas e seguras fontes. Por perceber que no contato com esses registros sociais estava a fonte de minha vocação, resolvi criar meu próprio espaço na mídia virtual, reunindo uma equipe capaz e competente.

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