Terminei o terceiro livro deste ano de 2026 – O perigo de estar lúcida – na hora do almoço. Comecei assim que o ano novo chegou e esse livro me acompanhou por muitas noites. Ele é tão interessante que conseguiu ocupar esse horário em que geralmente não consigo ler porque o sono chega muito rápido.
A autora, Rosa Montero, é uma jornalista, ficcionista e ensaísta espanhola que já passou dos 70 anos e desde muito jovem ficava intrigada com a propensão que os escritores, ela inclusive, têm para os transtornos psiquiátricos, adicção e o suicídio.
No decorrer do livro, que é contado por meio de pequenas crônicas, percebi o quanto os artistas são formados de uma matéria parecida. Infâncias complicadas marcadas por algum grande luto, depressão, ansiedade, transtorno bipolar, esquizofrenia, dependência química, alcoolismo ou relacionamentos abusivos.
A arte precisa de intensidade e o autor, em geral, não sabe viver no equilíbrio. Se está tudo certo, a criatividade vai para as “cucuias”. Senti isso na pele, quando, por um período, precisei tomar um medicamento para a ansiedade. A estabilidade veio, o que me ajudou bastante na administração da minha vida. No entanto, era dificílimo encontrar inspiração para a escrita. A atenção e a memória também foram prejudicadas.
Ou seja, ficar bem da saúde mental incluía algum nível de renúncia à musa desesperada da criatividade. Eu topei porque precisava desse recurso para poder seguir com a vida. No entanto, em outros tempos, muitos artistas fugiam dos tratamentos porque notavam o quanto a sua criatividade era tolhida. Em alguns casos, o escritor morreu porque não conseguia continuar a medicação ou porque teve um coma alcoólico, ou uma overdose de drogas. Em outros, como o da escritora neozelandesa Janet Frame, ocorreu o contrário, já que ela saiu da fila da lobotomia, aquela cirurgia terrível em que se tiravam pedaços do cérebro em busca da cura para transtornos mentais, após várias internações porque ganhou um prêmio internacional de escrita.
Convivo com pessoas com transtornos psicológicos desde que nasci. Minha mãe tem transtorno bipolar e, muito provavelmente, minha avó materna também tinha. As irmãs da minha avó e ela própria diziam que ela “sofria dos nervos”. Eu, muito pequena, não entendia bem o que era isso. Mais tarde, soube que ela passava longas temporadas reclusa no quarto, chorando e em outras, dançava, cantava e dava gargalhadas. Vivia solitária e não gostava muito de sair na rua nem frequentar ambientes com muita gente, como igrejas e reuniões. Minha mãe, geralmente, alternava o humor bruscamente no mesmo dia. O diagnóstico só foi fechado depois dos 50 anos e hoje, ela já tem mais qualidade de vida porque conseguiu controlar as crises.
Um tio paterno teve diagnóstico de esquizofrenia com 20 e poucos anos e passou por muitas internações ao longo da vida. Tenho alguns primos epilépticos também. A loucura meio que sempre viveu rondando as nossas histórias, assim como o esquecimento, pois muitos familiares já estão com Alzheimer. Alguns, com diagnóstico antes dos 70 anos.
Para não cair nessa paranóia de pensar que se vai endoidar, a solução que eu achei foi escrever e viver um dia de cada vez, sem pensar muito no futuro. O controle da ansiedade passa por isso e tem funcionado bem, ainda mais agora que estou lúcida. Essa lucidez é um perigo, mas até agora está dando para administrar direitinho.






































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































