Valentino Garavani é mais do que um nome histórico da moda: ele é a personificação de um ideal estético que se manteve firme mesmo quando o mundo decidiu correr na direção oposta. Nascido em 1932, na pequena Voghera, no norte da Itália, Valentino cresceu cercado por referências clássicas, arte e um fascínio precoce pela beleza absoluta. Desde muito jovem, demonstrou uma sensibilidade incomum para cores, tecidos e proporções, o que o levou a deixar a Itália ainda adolescente para se formar em Paris, o centro nervoso da alta-costura. Foi ali, entre a École des Beaux-Arts e a Chambre Syndicale de la Couture, que ele absorveu a disciplina quase militar da moda francesa, trabalhando em maisons como Jean Dessès e Guy Laroche, experiências que moldaram sua obsessão por acabamento perfeito e elegância atemporal.

Quando retornou à Itália, no fim da década de 1950, Valentino escolheu Roma como sede de seu império criativo. A decisão não foi casual: ele acreditava que a capital italiana reunia história, teatralidade e glamour suficientes para sustentar uma casa de moda que pretendia dialogar com o luxo clássico. Desde os primeiros desfiles, deixou claro que não seguiria tendências passageiras. Sua proposta era vestir mulheres com poder, presença e aura, criando roupas que sobrevivessem ao tempo. O reconhecimento internacional veio nos anos 1960, quando apresentou em Florença uma coleção dominada por vestidos vermelhos intensos, dramáticos e sofisticados. Nascia ali o lendário vermelho Valentino, uma assinatura cromática que se tornaria uma das mais reconhecidas da história da moda.





Ao longo das décadas seguintes, Valentino consolidou-se como o estilista preferido de mulheres que simbolizavam poder e sofisticação. Jacqueline Kennedy Onassis foi uma de suas clientes mais emblemáticas, confiando a ele momentos decisivos de sua vida pública. Elizabeth Taylor, Sophia Loren, princesas europeias, primeiras-damas e estrelas de Hollywood encontravam em seus vestidos uma combinação rara de glamour, sensualidade controlada e rigor técnico. Seus desfiles, especialmente entre os anos 1970 e 1980, tornaram-se verdadeiros acontecimentos sociais, marcados por silhuetas esculturais, capas majestosas, bordados minuciosos e uma visão quase arquitetônica do corpo feminino. Apresentações em Roma e Paris ajudaram a consolidar sua imagem como um dos últimos grandes mestres da alta-costura clássica.




Paralelamente à genialidade criativa, Valentino construiu uma reputação de personalidade forte e discurso afiado. Suas falas polêmicas atravessaram décadas e frequentemente entraram em choque com os rumos contemporâneos da indústria. Ele nunca escondeu sua rejeição ao excesso de informalidade no vestir e à banalização do luxo. Em entrevistas que repercutiram mundialmente, afirmou que “as pessoas se vestem sem respeito” e que “a elegância está desaparecendo do mundo”, declarações vistas por muitos como provocação, mas que refletiam sua visão profunda sobre comportamento, cultura e sociedade. Para Valentino, a maneira de se vestir era um reflexo direto de valores, e o abandono da elegância simbolizava uma perda maior: a do ritual e do cuidado com a própria imagem.








O estilista também criticou duramente a moda contemporânea, que considerava barulhenta, apressada e excessivamente conceitual. Em uma de suas frases mais citadas, declarou que não acreditava em roupas feias feitas apenas para chocar, defendendo que a moda deveria “fazer sonhar”. Essa postura o colocou, muitas vezes, em oposição direta a novos criadores e movimentos estéticos, reforçando sua imagem de guardião de um luxo clássico e inegociável. Longe de recuar, Valentino transformou essa resistência em parte de seu legado, tornando-se uma voz dissonante em uma indústria cada vez mais orientada pela velocidade e pelo consumo imediato.

O encerramento de sua carreira criativa aconteceu em 2008, em um desfile histórico no Museu Rodin, em Paris. A apresentação foi tratada como um evento de despedida solene e emocionante, reunindo referências a diferentes fases de sua trajetória, vestidos icônicos e, claro, o vermelho que marcou sua assinatura. Foi um adeus à altura de um criador que dedicou a vida inteira à busca pela perfeição estética. Mesmo após sua aposentadoria, Valentino Garavani permaneceu como figura central no universo do luxo, acompanhando à distância os novos rumos da maison que leva seu nome, sempre ancorada no DNA que ele construiu com rigor quase obsessivo.
Hoje, Valentino é lembrado como um estilista que transformou a elegância em posicionamento e a moda em manifesto cultural. Sua vida reúne desfiles históricos, clientes lendárias, frases controversas e uma fidelidade inabalável a um ideal estético que se recusou a envelhecer. Em um mundo cada vez mais efêmero, Valentino Garavani permanece como símbolo de permanência, provando que a verdadeira sofisticação não segue tendências, ela atravessa o tempo.








































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































