“Quem não tem jardins por dentro,/não planta jardins por fora/e nem passeia por eles…”
(Rubem Alves)
Ter um jardim era sonho de infância. Quantas vezes, nas redações de volta das férias ou mesmo nas paisagens ideais dos desenhos, eu não materializei esse desejo? Em uma dessas redações, escrevi de forma ainda mais específica. Queria um jardim com roseiras! Logo, uma das espécies mais temperamentais… E que precisaria de inúmeros cuidados para florescer e não morrer nesse calor que temos no Ceará.
O desejo ficou dormente e passei toda a adolescência sem sequer uma tentativa de iniciar qualquer jardim. Sempre morei em apartamento, mas nada impedia que eu colocasse vasos na janela ou na escada. Não houve interesse. Por essa época, preferia cuidar de mim. Pedir batons e vestidos para minha mãe, cuidar dos longos cabelos, sonhar com histórias românticas, escrever no diário. Nem sobrava tempo para esse tipo de pensamento. Posso atestar nas agendas todas desse período.
Já dona da minha própria casa, a mesma da infância, passei a admirar o zelo da vizinha pelas plantas que enchiam nossa escada e a pequena área entre a escada e o portão, onde meu pai guardava a moto. Como sabia do quanto as flores eram delicadas, a vizinha preferia as folhagens, mais fáceis de cuidar. E assim, continuamos a vida.
Focada no trabalho, durante longos anos, no meu tempo livre, em vez de querer criar meu próprio jardim com as flores do sonho da infância, eu me contentava com o verde dos jarros da vizinha. E dormia o máximo que me era possível nas folgas. Tinha esquecido por completo esse sonho infantil. Nem me fazia falta.
No entanto, o desejo veio forte quando me senti dona do tempo, da cozinha, dos cardápios e dos meus filhos miúdos. A necessidade de ter flores por perto se tornou tão presente que foi impossível não tentar achar alguém que vendesse plantas. Sim, porque eu não me arriscava a pedir mudas dos vizinhos e amigos. Achava que a pouca experiência as mataria. Nem sei se onde tirei esse pessimismo que ainda me acompanha de vez em quando.
Como o tempo era meu, consegui ouvir o chamado de um ambulante que vendia jarros com mini rosas em um carrinho de mão em alguma manhã ensolarada. Com o dinheiro do frango, comprei jarros com mini rosas brancas, vermelhas e amarelas. Testei a sombra da estante, mas elas gostavam mesmo era do sol da janela. E pareciam nem se importar com a vista feia para uma parede descascada com um cano aparente. Nem eu me importava, preferia olhar para o céu com nuvens de desenhos diferentes ou para os inúmeros objetos perdidos que estavam no telhado da vizinha. Eu e essa minha mania de tentar ver o bonito no meio do feio. De forma intuitiva, as flores iriam disfarçar ainda melhor essa visão desagradável.
As rosas sobreviveram até a primeira poda, alguns meses depois. Como matei as que cortei, comprei novas e nunca mais tive coragem de podá-las novamente. A elas, acrescentei o manjericão plantado com as sementes do supermercado e uns pequenos girassóis com essa mesma origem, assim como as Teresinhas pink e as mil folhas que brotavam até nas grades.
O jardim da janela foi minha fonte de paz por três anos. Tentei transportar as plantas para o novo endereço no qual vivo há sete anos. Não sobreviveram. Talvez a falta de sol na janela ou mesmo a tristeza que vivia nos rondando? Nunca entendi muito bem, só silenciei e pausei essa fase para iniciar a seguinte.
Enquanto a vida iniciava suas novas revoluções, chegou o tempo dos insetos que se despediam no meu apartamento do quarto andar e que contarei na crônica da semana que vem.






































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































