Na casa de Doca e Maria, meus avós paternos, a energia elétrica só chegou em 1994. Dessa forma, eu ainda passei cinco anos experimentando, nos feriados, o que era a rotina de viver sem os luxos da eletricidade. Dos seis aos 11 anos, eu ainda era menina pequena e, pelo menos uma vez no ano, estávamos lá para aproveitar esse tipo diferente de infância.
Digo que era a rotina do relógio do sol não só porque era o astro rei quem governava tudo, mas também porque meu tio Lino nos ensinou como fazer um desses, usando um galho, em uma parte iluminada, no meio das mangueiras. Eu e os primos observamos a engenhoca dele, mas não demos tanta atenção. Nem precisávamos saber as horas para viver sob o domínio do Sol. Os adultos nos avisavam da rotina.
Então, como menina da cidade, nem os galos atrapalhavam a minha vontade de dormir. No entanto, era regra da casa não ficar deitado depois das 6 da manhã. Meu avô, sempre muito trabalhador, considerava uma afronta ter qualquer pessoa que não estivesse doente, ficar deitada depois desse horário. Então, antes das seis, meu pai já vinha bater na minha rede para eu levantar.
Me arrastando, morrendo de preguiça, eu calçava a chinela e seguia para o lado de fora da casa, para o banheiro improvisado. Depois, era hora de escovar os dentes. Muito cuidado para não sujar os pés, a roupa ou o caneco de alumínio com a pasta. E nada de gastar mais do que uma caneca de água para escovar e lavar o rosto.
Sentada na cadeira de couro de boi, que meu avô sabia fazer, eu esperava ansiosa a tapioca com margarina primor e o café.
Dali a pouco, por volta das sete da manhã, a casa ficava cheia. Os amigos e parentes da redondeza vinham conversar com a gente. Chegavam meus primos e a bagunça tava feita. Às vezes, a gente ficava pela sala, se balançando nas redes até quase virar. Ou correndo no meio da sala, ou se pendurando nos punhos das redes. Outras vezes, caminhávamos no enorme terreno que ia até a beira do Córrego em busca de manga e araçá. Ou para caçar os pintos e borboletas.
Com o sol mais alto, geralmente às 8h30 ou 9h, a gente vestia a roupa de banho e seguia para a lagoa. Da casa dos meus avós para a Lagoa do Paraíso, era menos de cinco minutos. O caminho era uma vereda estreita, com plantas que arranhavam as pernas da gente. Quando o sol já estava quase no meio do céu, era hora de ir para casa almoçar. Antes de se sentar à mesa, um banho com água da cacimba, puxada pelos adultos. Depois do almoço, a rede convidava para um cochilo. A casa ficava em silêncio.
Com o sol baixando, por volta das 15h30, a gente voltava pra lagoa e esperava chegar o frio que o vento trazia aos nossos corpos molhados e enrugados de tanto tempo na água para voltarmos para casa. Por volta das 17h, outro banho, dar de comer às galinhas. E esperar o jantar.
O sol se pondo, a gente acendia as lamparinas. Uma para cada cômodo. Geralmente feita de uma lata de óleo ou de veneno pra barata. A longa chama fazia medo e fascínio. Na sala, os dois lampiões, que tinham um botijão de gás como combustível, eram acendidos pelo meu avô e logo juntavam mariposas ao seu redor. Os adultos chegavam e lotavam os bancos rústicos de madeira. Risadas, conversas de adulto, as novidades nas conquistas financeiras de cada um. Os idosos que morriam. Na cozinha, as mulheres se ajudavam na limpeza. Os restos de comida seriam para os gatos e porcos. Não havia geladeira. Nós, crianças, ficávamos do lado de fora aproveitando a luz das estrelas. Passa anel, cantigas de roda. Mais velhos, o cai no poço. O frio na barriga para saber quem ia beijar quem. As conversas altas rareavam, a casa se esvaziava um pouco. Sabíamos que estava perto da hora de se despedir. Mas aproveitávamos até que alguém viesse fechar as portas. Lavar os pés. Deitar na rede, para dormir embalado pelo som dos grilos ou dos gatos que se amavam nos telhados. Um breu, aquela escuridão profunda. Até que o sol, os galos e a batida do meu pai viessem me acordar de novo.







































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































