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Realidade e Ficção

Entre realidade e ficção, a escritora e crítica literária Vládia Mourão conduz o leitor por narrativas impactantes e inquietantes. Em sua nova crônica, fatos históricos e densidade literária se entrelaçam em um texto forte, reflexivo e atemporal — parte de uma série que, futuramente, deverá ganhar forma em livro.

Em novembro de 2025, o Ministério Público de Milão abriu um inquérito para apurar os “safáris humanos” realizados por pessoas milionárias durante a guerra na Bósnea, conflito armado que ocorreu entre abril de 1992 e dezembro de 1995. A investigação surgiu a partir do surgimento do dossiê do escritor e pesquisador italiano Ezio Gavazzeni, com provas e depoimentos sobre “cidadãos” italianos e de outras nacionalidades, que pagavam cerca 100 mil euros para atirar em civis, por diversão, em um esquema que incluía uma tabela de preços para alvejar diferentes alvos, incluindo mulheres e crianças em situação indefesa, quando iam em busca de adquirir água e alimentos.

Milícias sérvio-bósneas facilitavam a entrada de estrangeiros, principalmente italianos, russos e americanos, via voos charter (geralmente citada a companhia Aviogenex). Os “turistas de guerra” chegavam às sextas-feiras, recebiam armas, passavam o fim de semana atirando em civis de locais elevados e retornavam na segunda-feira para continuarem suas vidas normalmente. Os alvos erampessoas vulneráveis em Sarajevo, incluindo mulheres e crianças, que tentavam atravessar áreas perigosas conhecidas como “becos dos atiradores” (snipers). O local era área do cerco de Sarajevo, que durou 1.425 dias.

Ao me deparar com essas informações, lembrei-me do conto do escritor Rubem Fonseca, intitulado “Passeio Noturno I”. O conto narra o estranho hábito de um milionário que, frequentemente, ao chegar em casa, do trabalho, após conversar rapidamente com sua mulher, toma um banho e sai para fazer seu passeio noturno, com o intuito de desestressar do excesso de trabalho.

Um personagem narrador, sem nome, um empresário bem sucedido, caracterizado pelos seus bens materiais, com um padrão de vida bem acima da média, cruza a cidade do Rio de Janeiro rumo à periferia, passeando pelas ruas escuras à procura de sua presa. Não tem preferência por sexo, pode ser homem ou mulher. E o personagem declara: “Realmente não fazia grande diferença, mas não aparecia ninguém em condições, comecei a ficar tenso, isso sempre acontecia, eu até gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia ser ela, ainda que mulher fosse menos emocionante, por ser mais fácil. Ela caminhava apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário, coisas de padaria ou de quitanda, estava de saia e blusa, andava depressa, havia árvores na calçada, de vinte em vinte metros, um interessante problema a exigir uma grande dose de perícia. Apaguei as luzes do carro e acelerei. Ela só percebeu que eu ia pra cima dela quando ouviu o som da borracha dos pneus batendo no meio-fio. Peguei a mulher acima dos joelhos, bem no meio das duas pernas, um pouco mais sobre a perna esquerda, um golpe perfeito, ouvi o barulho do impacto partindo os dois ossões, dei uma guinada rápida para a esquerda, passei como um foguete… Motor bom, o meu, ia de zero a cem quilômetros em nove segundos.”

Quando o empresário retorna para sua mansão, coloca o carro na garagem, examina com orgulho os para-choques e os para-lamas para constatar que não houve nenhuma avaria. Na sala encontra a família assistindo TV. A mulher pergunta se ele conseguiu ficar mais calmo depois do seu passeio costumeiro. E ele responde calmamente que precisa dormir, porque o dia seguinte será terrível.

Quando colocamos ficção e realidade frente a frente, o que temos aqui é a constatação de que a ficção é muito cruel, mas a realidade consegue extrapolar todos os limites da crueldade, da desumanização, da coisificação do ser humano, transformado pessoas em objetos para a satisfação de pessoas desumanizadas! (Vládia Mourão)

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Por minha vasta convivência profissional durante anos com a sociedade de Fortaleza, aprendi a captar notícias em suas mais preciosas e seguras fontes. Por perceber que no contato com esses registros sociais estava a fonte de minha vocação, resolvi criar meu próprio espaço na mídia virtual, reunindo uma equipe capaz e competente.

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