Com a energia elétrica, não foram apenas os eletrodomésticos que começaram a chegar nas cozinhas. Aos poucos, as antenas parabólicas também surgiram nos telhados e, com elas, as televisões nas salas.
Na maioria das cidades brasileiras, esse movimento ocorreu no início dos anos 1970. No “meu interior” e talvez em boa parte dos rincões cearenses, isso só ocorreu na segunda metade dos anos 1990. Por esse tempo, meu avô já contava mais de 70 anos, mas continuava muito convicto das suas decisões. Na casa dele, nunca existiria uma televisão, porque com ela, segundo ele, chegaria a preguiça, a perda de tempo com coisas inúteis, assim como a imoralidade. Para todos que chegavam para sentar nos bancos rústicos da sua sala, ele dizia, abertamente: “Só tem três coisas que eu gosto de ver na TV: a Santa Missa, o Nordeste Caboclo e o Nordeste Rural. O resto é tudo besteira e coisa de gente que não tem o que fazer. Enquanto vida eu tiver, não vai ter televisão nessa casa”. Ele falou, tava falado.
Meus primos das redondezas também não tinham televisão em casa. Nesse tempo, por volta de 1995 e 1996, as novelas mexicanas com a Thalia como protagonista eram uma verdadeira febre. Maria Mercedes, Maria do Bairro e Marimar já faziam as meninas chorarem por seus dramas e suspirarem pelos galãs que faziam o par romântico. Em casa, sempre preferi as novelas da Globo. Mas, de tanto os meus primos falarem, acabei indo para a casa de uma pessoa desconhecida ver o que tanto atraía a eles nessas histórias melosas.
Depois de passar o dia todo tomando banho na lagoa, a gente tomava outro banho de cacimba, jantava, se perfumava e esperava dar o horário de ir com uma turma grande, de bem uns dez adolescentes e crianças, encher a sala de algum desconhecido e ver a novela. Seguíamos no caminho de areia, a lua cheia clareando tudo ou então as estrelas faiscantes naquele céu, geralmente limpo e sem nuvens. Eu gostava de deitar na calçada em frente da casa do meu avô e ficar olhando para o céu, enquanto a turma se reunia. Nesse tempo, já estava aprendendo aonde ficava a constelação de Escorpião. Depois de todos reunidos, a gente ia rindo e se empurrando, em tempo de cair nas veredas e nos pés de cerca. Alguns, mais ousados, tentavam ir abraçados ou de mãos dadas. Adolescência é fogo.
Ao pensar nesse ritual de preparação para ver a novela, eu lembro logo dos perfumes e hidratantes da época. Eu acho que ainda estava na minha fase de perfume da mercearia, com o popular Gellu’s. Meus primos usavam as colônias mais famosas da Avon, que depois viraram aquelas da embalagem de cristal. Era o Charisma, o preferido da minha avó, o Topaze, o Timeless. Graças a Deus, ninguém gostava muito do Toque de Amor, ô perfume enjoento! Também tinha o Musk Fresh e o normal, amarelo. Hidratante também era importante, até porque eu ficava quase com insolação porque não usava protetor solar. Ou era Monange ou os da marca Paixão. Nesse tempo, só existia o azul e o rosa. Até hoje quando eu sinto o cheiro, lembro desse tempo bom.
Na sala da pessoa desconhecida, a gente sentava no chão e lotava de gente, até ficar perto das paredes. Todo mundo em silêncio, para não atrapalhar os donos da casa. Os menores sempre dormiam no nosso colo. Depois, sempre as perguntas de onde éramos, quem eram os nossos pais. “Ah, vocês são netos do padrinho/tio Doca. Aquele ali, tem nem perigo de comprar uma televisão. Mas podem vir sempre assistir aqui”, falavam. Depois, soube que os donos da casa eram nossos primos distantes. Lá, as famílias se casam entre si. Acaba que todo mundo é meio parente. Depois da novela, a gente bebia água de pote. Sempre aquele capricho, o paninho de crochê cobrindo a boca do recipiente de barro. O suporte de madeira com as canecas de alumínio muito bem areadas. Em algumas casas, era até pintado à mão. Algumas vezes, davam refrigerante ou suco de alguma coisa.
Terminou a novela, perto de 20h30, a gente seguia pelo mesmo caminho de areia, já meio bêbado de sono. Mas a algazarra ajudava a dar uma acordada. Se a casa estivesse quase escura, era certeza de um carão no dia seguinte.
Para escapar da bronca, seria melhor sair antes de terminar a novela. Mas, como a gente ia ficar na expectativa pelo dia seguinte? Ninguém nem ia entender o capítulo. E sempre terminava na melhor parte.
Então, era carão quase todo dia mesmo, tudo em nome de acompanhar os dramas das Marias da Thalia.






































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































