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Quando a energia chegou

Em meados dos anos 1990, começaram a ligar a energia no Córrego do Urubu. Nas férias, notamos que os lampiões a gás de cozinha foram guardados no quarto. As lamparinas também. Apesar de ter energia, não havia muita estabilidade e, muitas vezes, se ficava no escuro.

Por esse tempo, o meu pai e os seus irmãos se juntaram para comprar uma geladeira e outros eletrodomésticos, como liquidificador, ferro de engomar e outras coisas. Lembro de uma vez que meu pai mostrou como fazer um suco de manga e de maracujá sem liquidificador. Era só machucar as frutas com as mãos e depois coar como se fosse café em um pano limpo. Achei interessante. O fogão a gás já havia algum tempo que dividia seu papel com o fogão a lenha.

Conversando com outras amigas que tinham o hábito de visitar os avós no interior, percebi que, na nossa família, as coisas eram um pouco diferentes. Na casa dos meus avós, nunca houve uma pessoa fixa para ajudar com a casa. Geralmente, alguma neta das redondezas vinha dar uma força com a arrumação e as roupas, mas nunca teve funcionário.

Minha tia Teresinha sempre assumia a cozinha nas nossas temporadas por lá. Eu já amava a comida dela de muito antes, porque era a tia que morava mais perto da minha casa. Era ela na mesa e no fogão, aprontando o almoço, e a minha avó no tucum rindo e conversando.

Sim, tínhamos uma rede de corda na cozinha. Era lá que minha vó Maria gostava de comer em sua bacia, brincando que era para não ter fastio. E que todas as suas dobras na barriga não eram sinal de que ela era “forte”. “É só escuma (espuma)”, ela ria.

Por esse tempo, nós já tínhamos nossos dez, onze anos. E quando, escurecia, depois do jantar, como tinha uma lâmpada amarela pendurada para o lado de fora, a gente sentava na calçada e ia brincar de passa anel para pegar na mão uns dos outros e de cai no poço, pra, quem sabe, beijar pela primeira vez.

Éramos uma turma de mais de dez primos e vizinhos. Os meninos mais velhos talvez tivessem uns 15 anos. E ainda tinha as crianças, que vinham só pra curiar.

À essa época, eu já tinha meus amores bestas e platônicos e ficava esperando que ele dissesse maçã – que era um selinho – quando chegasse a minha vez.

“Cai no poço/ Com água aonde?/ No pescoço/Quem te tira? /meu bem!/ pêra, uva, maçã ou salada mista?”

Olhos fechados, coração quase saindo pela boca, mãos suadas. Mas o menino nem chegava perto. E na única vez que chegou, disse pêra, só para pegar na minha mão. Que ódio!

Nesse tempo, eu entrava de volta na velha casa pisando forte. Bebia um copo de água do pote para passar a raiva.

Depois, soube que os irmãos menores, com seis, sete anos, iam para perto da gente só para contar as aventuras para os nossos pais. Na verdade, ainda bem que o menino só pegou na minha mão. Se tivesse dado um beijo, era capaz de eu levar uns carões. Valeu a pena.

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Por minha vasta convivência profissional durante anos com a sociedade de Fortaleza, aprendi a captar notícias em suas mais preciosas e seguras fontes. Por perceber que no contato com esses registros sociais estava a fonte de minha vocação, resolvi criar meu próprio espaço na mídia virtual, reunindo uma equipe capaz e competente.

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