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O perigo do Natal

“o tempo contado/na passagem/do medo/pequena a/inda não sabe/dizer as horas/sabe do tempo/que corre/e que se morre/deixando/se espatifarem/as lágrimas”

(Jarid Arraes)

O período que antecede as festas natalinas é conhecido pela muvuca. Todo mundo correndo atrás do presente dos parentes, daquele amigo secreto, amigo doce, os panetones, a ceia… E quanto mais o dia 24 se aproxima, mais as ruas se enchem de pessoas, tal qual um formigueiro de gente.

É tempo também de casas mais cheias. É comum receber parentes e amigos de longe, em especial em cidades turísticas como Fortaleza.

Por um lado, as pessoas estão mais carinhosas e solidárias. E por outro, as muitas distrações deixam um público mais desprotegido que de costume – as crianças e adolescentes.

Tentei encontrar dados que comprovassem que os números de abuso aumentam nessa época, mas não achei. Só consigo lembrar bem é dos relatos que ouvi das minhas amigas e do que ocorreu comigo.

Era o primo que passava temporada na casa da tia. O tio vindo de outra cidade. O amigo do pai que estava bebendo com ele… Basta um descuido, um momento a sós ou uma porta destrancada e pronto. Mais uma estatística para ser contabilizada. Nem a Xuxa se livrou desse tipo de situação. Tenho pelo menos cinco amigas que foram vítimas de abusadores antes dos 14 anos. Todas com casos envolvendo familiares e amigos da família porque, geralmente, o perigo está dentro de casa.

Segundo o relatório mais recente do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registra, em média, sete denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes por hora. Em 2023, mais de 65 mil vítimas foram contabilizadas. Os dados englobam casos de estupro, pornografia infantil e exploração sexual envolvendo pessoas de 0 a 17 anos. Em relação a 2022, os registros apresentaram um aumento médio de 26%.

Faço parte da estatística. Conto para que possamos estar mais atentos como cuidadores nessa época tão perigosa, por conta de homens pedófilos que são capazes do abuso até em uma loja de brinquedos.

Não adiantou eu ser criança. Nem estar com minha mãe segurando minha mão com força. A minha roupa era coberta, não tinha nenhuma sensualidade. Era uma camiseta e uma bermuda no joelho. Digo isso porque sempre aparece alguém para colocar a culpa na vítima. Ou na mãe que não cuidou da filha direito. Como se as culpadas fôssemos nós e não esses monstros criminosos.

O meu relato, trago completo em uma crônica que está na primeira coletânea de textos do grupo Mulheres, Livros e Vinhos, que será lançada nesta quinta, dia 18, na Biblioteca Estadual do Ceará, com organização da escritora Patrícia Cacau. Tem crônica, conto e poesia sobre os mais diversos assuntos.

É em grupos assim que a gente consegue cultivar a sonoridade e saber que nossos traumas têm cura, com a ajuda de terapia, de muita conversa e de afeto. A amizade feminina nos salva.

Pode ser utopia, mas ainda sonho com um mundo em que nós, mulheres, vamos poder ter paz pra andar nas ruas de forma normal e não ter que conviver com o abuso e a impunidade. Até lá, tem muita luta ainda. Sigamos!

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Por minha vasta convivência profissional durante anos com a sociedade de Fortaleza, aprendi a captar notícias em suas mais preciosas e seguras fontes. Por perceber que no contato com esses registros sociais estava a fonte de minha vocação, resolvi criar meu próprio espaço na mídia virtual, reunindo uma equipe capaz e competente.

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