Nossa entrevistada deste domingo é a advogada e primeira mulher presidente da Câmara Brasil Portugal do Ceará, Patrícia Campos. Especializada em Planejamento Sucessório Empresarial, Direito Tributário e Direito Empresarial, é mestranda em Direito Internacional Privado e possui ampla formação em Compliance.
É sócia do escritório Campos Advocacia Corporativa e Internacional e da Campos Aguiar Consultoria, com operação em Portugal, onde presta consultoria para empresas em processo de internacionalização na Comunidade Europeia. Foi vice-presidente da Caixa de Assistência dos Advogados do Ceará. Na área acadêmica, Patricia foi professora na Fametro e na Fanor.
No Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Ceará implementou a Procuradoria Geral, exercendo o cargo de Procuradora Geral de 2018 a 2023. Patricia também foi Procuradora Geral de Caucaia, Cedro e outros municípios. Possui experiência como palestrante e é autora de livro e artigos jurídicos publicados em jornais e revistas. Foi uma das fundadoras da Associação dos Jovens Advogados do Ceará.
Sua atuação é marcada pelo compromisso com a ética, a integridade e a promoção do acesso à justiça, valores que orientam suas atividades profissionais e acadêmicas.



Você é advogada com uma trajetória de sucesso, especialmente no campo do Direito Público. Conta pra gente como você optou por esse caminho profissional?
É curioso, porque não fui eu quem escolheu o Direito Público — a vida me levou até ele. Ao longo da carreira, assumi funções que exigiam técnica e responsabilidade institucional, e assim construí uma trajetória sólida nesse campo. Mas minha verdadeira vocação sempre foi o Direito Tributário e, sobretudo, o Societário, onde sinto que realmente transformo realidades. Quando alguém me procura para estruturar uma empresa ou uma sucessão familiar, confia em mim histórias e legados — e isso exige sensibilidade, não apenas técnica. Sempre acreditei que entender pessoas é tão importante quanto entender cláusulas. No societário, meu papel é construir pontes entre sócios, gerações e futuros possíveis. E foi nessa união entre vida pública e soluções societárias que encontrei meu propósito: ajudar pessoas e empresas a avançar com segurança e clareza.
A liderança sempre foi presente no seu caminho, de forma que você foi pioneira como mulher na gestão de muitas das associações da área do Direito. Como foi essa experiência? Chegou a encontrar algum tipo de resistência por ser mulher?
Sim. E digo isso com transparência, porque minha trajetória não foi construída sem desafios. Quando comecei, há quase 30 anos, não existia esse discurso de que “a mulher pode ser o que quiser”. As mulheres, especialmente no Direito, eram levadas aos bastidores – raramente às mesas de decisão. E eu ainda escolhi o Direito Tributário, uma área onde quase não havia mulheres com projeção. Era um ambiente técnico e dominado por homens, o que me obrigou a observar mais, entender o momento certo de falar e, muitas vezes, usar o silêncio como estratégia. Enfrentei resistência. Houve olhares de dúvida e situações em que eu precisava provar duas vezes mais para ser ouvida uma única vez. Mas cada passo valeu a pena. Essa caminhada me deu propósito, força e clareza. Hoje, quando estou à frente de uma instituição ou conduzindo uma negociação societária, faço isso com a consciência de quem trilhou um caminho difícil, mas profundamente transformador — e é essa experiência que sustenta a profissional que sou.
Hoje, você está à frente da Câmara Brasil Portugal, como a primeira mulher a assumir a presidência da instituição. Quais são os seus projetos para a entidade?
Assumir a presidência da Câmara Brasil Portugal no Ceará como a primeira mulher é uma honra e uma grande responsabilidade. Defini dois pilares centrais para minha gestão.
O primeiro é fortalecer a autoridade institucional da CBPCE, reafirmando nosso papel como canal oficial de diálogo e cooperação entre Ceará e Portugal, sendo porta de entrada para empresários portugueses e apoio seguro para os cearenses que desejam acessar Portugal. O segundo pilar é impulsionar nossos associados, ampliando sua visibilidade e criando conexões qualificadas que gerem novos negócios. Além disso, estamos implementando ações práticas: uma rede de benefícios reais, cafés e almoços de negócios, apoio à orientação de vistos e a ampliação das missões empresariais bilaterais — que serão um dos grandes legados desta gestão. Meu compromisso é fazer da CBPCE uma ponte viva e transformadora, onde parcerias se consolidem e resultados floresçam.
De que forma você equilibra o bem-estar, a vida pessoal e a vida profissional?
Esse talvez seja o ponto mais desafiador para mim. Sou, assumidamente, workaholic — e isso já me cobrou um preço no passado. Sempre fui muito exigente comigo mesma, com a excelência do meu trabalho e com a postura ética que sempre procurei manter. Essa cobrança me fortaleceu, mas também me ensinou a olhar com mais cuidado para minha própria humanidade.
Hoje busco um equilíbrio mais consciente. Faço exercícios regularmente, cuido da alimentação e mantenho o compromisso de realizar pelo menos uma viagem de férias por ano com meu marido e nossa família. Inclusive estamos prestes a embarcar para Londres, Bruxelas e Paris, o que me enche de alegria. E há um elemento que muda tudo: meus netos. Arthur Bruno, José Rafael, Diego Lúcio e a pequena Maria Sofia, que ainda está a caminho, são meu lembrete diário do que realmente importa. Eles me devolvem o eixo e a doçura da vida. Também carrego uma espiritualidade muito forte. Sou católica, profundamente mariana, e busco orientar minhas escolhas pelo amor que, para mim, é o grande pilar que sustenta tudo. Equilibrar tudo isso não é simples. Mas aprendi que nenhuma trajetória se sustenta sem bem-estar, que excelência precisa de propósito e que os resultados só fazem sentido quando a vida floresce junto.
Como foi a experiência no ensino? Você chegou a pensar em seguir a carreira acadêmica?
Minha experiência no ensino foi importante, embora não tenha ocorrido no melhor momento. Eu vivia uma rotina intensa, com muitas viagens e compromissos institucionais, o que comprometia a entrega acadêmica — algo que sempre levei muito a sério. Mesmo me esforçando, eu sabia que não conseguia oferecer aos alunos a presença e a dedicação contínua que a sala de aula exige. A carreira acadêmica chegou a me atrair, mas percebi que meu propósito estava na prática jurídica: na solução de problemas complexos, na estruturação de negócios e na construção de pontes entre pessoas e instituições. E, de certa forma, continuo ensinando. Ensino pelas decisões que tomo, pelas equipes que formo e pelo conhecimento que aplico no dia a dia. Foi assim que encontrei meu verdadeiro caminho.




Quais são os seus hobbies?
(Risos) Se eu dissesse “trabalhar”, você acreditaria? Porque o trabalho realmente me energiza. Mas, quando o silêncio chega e eu me permito respirar, dois hobbies me acompanham. O primeiro é a música, que tem um poder quase espiritual de reorganizar o que está dentro de mim. Às vezes, basta uma melodia para que tudo encontre seu lugar novamente. Música me acalma, me conecta e me devolve o eixo. O segundo é escrever, um lado quase secreto da minha vida. Alguns chamam de poesia, mas não me considero poeta. Eu simplesmente escrevo o que toca a minha alma: pensamentos, sentimentos, pequenas verdades que surgem entre um compromisso e outro. Escrevo para entender o mundo… e muitas vezes para entender a mim mesma. São hobbies simples, mas profundamente meus e são eles que me mantêm inteira em meio a tanta responsabilidade e movimento.
Nos indique um filme, uma série e um livro.
Com prazer. Essas escolhas revelam um pouco de quem eu sou.
Série – Suits
(Risos) Uma das minhas favoritas. Gosto da inteligência jurídica, da estratégia e dos diálogos afiados — sempre há um insight escondido para quem é do Direito.
Livro – Papillon
Li na adolescência e nunca esqueci. É uma história de resistência e liberdade. A obstinação do personagem é um lembrete de que não devemos desistir, mesmo quando tudo parece contrário.
Filme – A Lista de Schindler
Um filme forte e inesquecível. Sempre me lembra do poder da compaixão e de como escolhas individuais podem mudar destinos.






































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































