SALETE EM SOCIEDADE

Hoje é dia de Clarice

Conheci Clarice Lispector pelos seus textos infantis. Talvez no livro de português da segunda ou terceira série estava lá o conhecido texto “A vida íntima de Laura”, que conta a história de uma galinha. Essa ave aparece outras vezes em sua literatura, inclusive.

Mais tarde, em uma das coletâneas de crônicas “Para gostar de ler”, me encantei com o texto “O Primeiro Beijo”, que trata do beijo sem graça de uma pessoa e uma estátua. Nem sei o porquê, talvez pela forma dela contar a história, tirei xerox do texto e colei na minha agenda do ano. Por esses tempos de adolescente, eu mantinha diários anuais com confidências e recortes. Ela entrou na curadoria.

No meu único vestibular para Jornalismo, o de 2000, o seu livro de contos Laços de Família estava na lista dos livros escolhidos para a prova da Universidade Federal do Ceará. Desde que mudei de escola, na antiga oitava série, fazia questão de ler todos os livros paradidáticos. Com os do vestibular, os planos era ler e reler. Nao deu certo, pelo tempo corrido, mas dessa obra guardo o ranço dos meus amigos homens que, em sua maioria, a consideravam uma bruxa porque não conseguiam compreender suas epifanias.

Com minha pouca experiência de vida, aos 17 anos, sinto que devo ter apenas arranhado a superfície das histórias. No entanto, elas ficaram marcadas em mim por longos anos.

Em uma releitura solitária, 20 anos depois, já no livro com todos os contos, foram muitos os momentos de cair em prantos. Isso porque ali, com mais de 35 anos de vida, eu conseguia compreender melhor a escrita. As vivências e a maturidade me deram um novo olhar e fiquei ainda mais marcada pela escrita de Clarice.

Suas coletâneas de contos, crônicas, cartas e a novela A Hora da Estrela estão em destaque na minha estante, com a nova roupagem que a Rocco deu a toda a obra da autora após a tradução de Benjamim Moser para o inglês. As coleções de capa dura saíram primeiro em língua inglesa e só depois em português.

Benjamim também escreveu uma biografia da autora, criticada por muitos estudiosos, porque enfatiza alguns temas não tão explorados, como a ascendência judaica da autora e o viés feminista de alguns textos. A intenção talvez tenha sido ampliar o marketing para as vendas dos livros da autora nos últimos anos, que a transformaram em um verdadeiro fenômeno.

Esses bastidores da tradução de livros que marcaram meu cotidiano estão no livro “Clarice Lispector em língua inglesa – Uma história contada pela tradução”, que será lançado esta semana, em Fortaleza.

Enquanto para a pesquisadora autora desse livro, o texto mais marcante foi “Felicidade Clandestina”, o meu continua sendo a crônica “As três experiências”. Como Clarice, também nasci para amar os outros, escrever e criar meus filhos e, por isso, tantas escolhas recentes, como trabalhar de casa e desacelerar.

Clarice faleceu de câncer neste dia 9, na véspera de completar 57 anos, em 1977. Uma infeliz coincidência. Mas seu legado permanece comigo e com tantos outros leitores, por tantas gerações. É à ela que recorro quando a inspiração está pouca para escrever meus textos. E ela sempre me atende, com histórias, por vezes surpreendentes, geralmente vindas de cartas de seus leitores para os jornais. Clarice segue eterna.

Facebook
Twitter
LinkedIn

Apoio Social

SALETE EM SOCIEDADE

Veja Outros Posts Recentes

Por minha vasta convivência profissional durante anos com a sociedade de Fortaleza, aprendi a captar notícias em suas mais preciosas e seguras fontes. Por perceber que no contato com esses registros sociais estava a fonte de minha vocação, resolvi criar meu próprio espaço na mídia virtual, reunindo uma equipe capaz e competente.

© 2025 Salete em Sociedade – Todos os Direitos Reservados