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O último dia

Era uma quarta-feira. Meus pés continuavam inchados. A barriga pontuda, listrada de estrias vermelhas e o umbigo estufado mostravam que estávamos no limite.

Esquecendo desse limite, fui teimosa e andei quase dois quilômetros na segunda-feira para agendar a cesárea. Devagarinho, fui andando, andando pelas ruas da aldeota até a sede do plano de saúde e quando cheguei em casa percebi que tinha perdido o tampão, primeira marca do início do trabalho de parto.

Depois do carão da médica por telefone, a orientação foi repouso absoluto para que o parto do meu primeiro filho não se iniciasse. “Você mora a 20km do hospital, não se esqueça! Já pensou se não der tempo e parir no caminho?”, me assustavam as visitas que apareceram em casa.

Então, foram alguns dias fazendo o que faço de melhor até hoje: repousar e dormir. Para matar o tédio, uma pilha de DVDs que incluía a trilogia do Senhor dos Anéis.

Depois de dois dias levantando apenas para ir ao banheiro e comer, um frio na barriga tomava conta de mim. Eu sabia que o meu bebê poderia vir a qualquer momento, não havia impedimento. Faltavam apenas as contrações. O parto tinha sido agendado para a quinta. Será se o bebê ia querer vir antes?

Tensa, na quarta de noite, peguei o caderno do Shrek Dois e escrevi a carta da última noite com ele na barriga. Lembrei dos tempos das velhas agendas e diários e escrevi com caneta brilhosa, como se eu fosse uma adolescente. Não era, já tinha 24 anos. Recortei figuras fofas das revistas Crescer que eu era assinante para deixar a carta mais bonita. Lembrei por alguns momentos dos tempos em que eu escrevia as cartas para a minha filha que não veio.

Coloquei todo o amor que eu tinha naquela escrita, fiz carinho na barriga grande. Pensei: será que algum dia eu vou voltar ao normal? Logo, esse pensamento se dissipou e deu lugar ao medo da dor do parto e de não chegar a tempo no hospital. Talvez tenham caído algumas lágrimas. Não lembro bem.

O colchão no chão da sala, a janela aberta para avistar as estrelas na minha última madrugada sem um filho por perto. Aos poucos fui adormecendo e despertei quando o sol fraco do amanhecer esquentou meu rosto.

Já se passaram quase 20 anos desse dia e atesto: nunca mais minha vida foi a mesma. Muito menos eu. E foi melhor assim.

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Por minha vasta convivência profissional durante anos com a sociedade de Fortaleza, aprendi a captar notícias em suas mais preciosas e seguras fontes. Por perceber que no contato com esses registros sociais estava a fonte de minha vocação, resolvi criar meu próprio espaço na mídia virtual, reunindo uma equipe capaz e competente.

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