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As melancias da Páscoa

Esses dias me pus a pensar nos sabores principais das festas celebradas pela minha família que, em geral, não correspondem aos da maioria das casas. Por exemplo, para muitos, o sabor mais marcante da Semana Santa é o chocolate. Se você for cearense, quem sabe acrescente o pão de côco e o peixe. Mas, para mim, o sabor mais forte desse período não é bem esse.

Na casa do meu avô, a gente comia umas melancias plantadas no terreiro de casa na Sexta-Feira Santa. Eu, que sempre amei melancia, quando soube que ia comer essa fruta fiquei toda animada. Até porque, nesse tempo, a gente só comia as frutas do quintal.

Quando meu avô abriu e eu vi que ela era branca por dentro e não vermelha, achei esquisito, mas ainda tinha esperança que fosse docinha como as do supermercado. Ele então partiu e deu um pedaço para todos de casa, como fez Jesus na última ceia e ainda distribuiu as inteiras para todos os filhos que moravam perto.

Ao dar a primeira mordida, percebi que a melancia não era doce, mas aguada e sem sabor. Reclamei e o meu avô disse que era uma espécie de penitência comer aquilo no Dia da Paixão. Que aquele era um dia de refletir e não de comer só o que se gosta.

Fiquei com aquilo na mente e até hoje quando penso no que tenho de mais forte de sabor dessa data, associo logo a essa melancia.

Nem sempre a vida vai ser doce. Muitas vezes, mesmo com vontade de se presentear com algo de sabor agradável, vamos ter que matar a fome com algo sem graça como essa melancia branca. E isso não vai ser totalmente ruim, vai deixar a gente mais forte pras batalhas porque nem sempre a gente faz o que deseja, mas o que é preciso.

Aquelas melancias eram plantadas para aquele fim. Todos sabiam que elas não eram doces. E mesmo assim eram gratos.

Outra lição que aprendi só agora é que as pessoas só podem dar aquilo que têm. Eu não posso esperar doçura de uma fruta que não tem essa capacidade.

Essa espécie de melancia nunca ia ser doce. Era sem gosto mesmo. Era dela, isso. Então, sem expectativas a vida fica um pouco melhor. Se eu não gostar, é só não comer de novo. Isso, se for possível.

No caso do meu avô, ele se ressentia. Era uma desfeita não comer. Então, eu comia só um pouco e ficava mais longe da mesa. Essa tradição das melancias, assim como todo o ritual da Semana Santa do meu avô, que incluía outras coisas, me fez sentir parte da família. E mesmo não sendo gostosa a fruta, estar junto eternizou esse momento.

Mesmo depois de duas décadas da sua morte, eu ainda lembro bem. Isso me faz grata.

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Por minha vasta convivência profissional durante anos com a sociedade de Fortaleza, aprendi a captar notícias em suas mais preciosas e seguras fontes. Por perceber que no contato com esses registros sociais estava a fonte de minha vocação, resolvi criar meu próprio espaço na mídia virtual, reunindo uma equipe capaz e competente.

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