Eu imaginava a Mãe d’Água como uma velha senhora, de longos cabelos grisalhos, vestida de azul e flutuando na parte funda da lagoa da Jijoca. Ela estaria sentadinha, como se estivesse em uma pedra, sem ter a pedra. Às vezes, imaginava ela sentada na forquilha, de onde muita gente pulava e dava uns mergulhos. Eu não, os meus primos. Nunca fiz isso, com medo de me machucar.
Outras vezes, imaginei como uma imensa moreia, mas com a cabeça da velha senhora. Conhecia as moreias da enciclopédia Novo Conhecer. Um dos livros tinha várias espécies de peixes. Mas essa colagem era meio tosca na minha cabeça. Não combinava muito.
Vó Maria, para a gente ficar em casa na hora do almoço, dizia que se fôssemos na lagoa entre meio-dia e duas da tarde, iríamos nos encontrar com ela e a morte era certa. Eu só aprendi a nadar com 12 anos e mesmo assim, nunca fui muito boa nisso, então, obedecia minha avó, apesar da tentação que era tomar aquele banho morno relaxante, logo depois do almoço.
Já adolescente, a gente fica mais maluvido. Lembro de um churrasco quase perfeito que a gente fez na beira da água, justo na hora do almoço. As companhias eram ótimas e as conversas também, só os primos mesmo. No entanto, as carnes eram poucas e ficou muito ruim. Era asa e coxinha da asa de frango na brasa. Fizemos o fogo debaixo dos cajueiros. Queimou tudo e a gente acabou almoçando manga. Ainda veio uma chuva para apagar as brasas. Acho que foi nesse dia que eu tomei a catuaba pela primeira vez. Depois desse dia, a catuaba ficou sendo a bebida oficial dos encontros. Era ruim, mas ao menos era doce. Tomando só um copo, não dava vontade de vomitar, pelo menos.
A Mãe d’Água, segundo o folclore brasileiro, é muito diferente dessa da minha imaginação. É uma sereia linda, de olhos verdes, toda sedutora, que atrai os homens para a água e depois, os mata. Se não morrerem, precisam passar pelas mãos de uma benzedeira ou um pajé, porque ficam abestados. Um homem ficar doido de amor, encantado… Queria ter esse poder. Então, nem precisava me preocupar, porque ela gostava era dos caras, não de meninas.
Sobre a história da Princesa Encantada da Jeri, só soube muito mais tarde. E, mesmo assim, era tudo muito desconexo. O tio João contou que existia uma furna perto da Pedra Furada, no Serrote, e que ela se escondia lá. Era muito bonita, mas quem quisesse ver precisava pagar uma prenda. Quando eu tinha dez anos, ele não me disse qual era.
A Princesa Encantada, a da lenda coletada pelo Câmara Cascudo, conta que ela foi transformada numa serpente de escamas de ouro, com cabeça e pés de mulher, que só pode ser desencantada com sangue humano. No dia em que alguém for sacrificado junto do portão, será aberta a entrada para um reino maravilhoso. Com o sangue será feita uma cruz no dorso da serpente, e então surgirá a princesa com toda sua beleza, cercada de tesouros inimagináveis, e a cidade com suas torres douradas, finalmente poderá ser vista. Então, o felizardo responsável pelo desencantamento poderá casar com a princesa.
As princesas tornadas serpentes são vestígios do ciclo dos Mouros na península Ibérica. Em Portugal, quase todas as Mouras Encantadas vivem sob a forma de serpentes.
Antes de saber dessa lenda pelo registro oficial, inventei de conhecer a Pedra Furada com essa mesma turma de primos. Sem conhecer direito o caminho, fomos pela beira da praia e ficamos ilhados, sem ter como seguir em frente e nem voltar, porque a maré subiu. Lembro que o sol estava a pino, entre o meio-dia e as duas da tarde, tentamos escalar as pedras para poder prosseguir. Desistimos depois de eu ter cortado o pé, a gente estar quase dando um desespero de sede e a máquina fotográfica do meu primo Josa ter caído na água, para a gente tentar registrar o tal buraco no paredão de pedras que podia ser a furna da princesa. Eu tinha uns 14 anos. Para nossa sorte, a maré baixou e a gente voltou pelo mesmo caminho. No ano seguinte, conseguimos ir para a Pedra Furada por cima do serrote. E quase teve tragédia de novo.
A tragédia é porque, nessa segunda tentativa, nossa prima que tinha epilepsia foi com a gente e teve uma crise em cima do serrote. Graças a Deus, conseguimos segurá-la para que ela não morresse no precipício. Será que a princesa estava com ciúmes da nossa prima? Um irmão dela, alguns anos antes, tinha morrido afogado porque deu um ataque na água.
A gente tinha ido escondido para esse passeio. Mas sobrevivemos todos e temos fotos desse dia, em 1998. Como esse percurso durava quase duas horas, nunca mais fiz esse esforço. Que lugar longe! E nem era tão bonito assim. Será se eu volto ainda por lá?
Comprei o livro do Câmara Cascudo que tinha a lenda da princesa para usar na minha monografia sobre o povo Tapeba. E depois ainda soube que tem livro infantil, filme, romance, de fantasia, fanfic…
A Princesa Encantada de Jeri é bem famosa.Fiquei matutando… Será se a Mãe d’água era a mãe da princesa encantada? Será que tinha um buraco por dentro da lagoa para elas conversarem de vez em quando? Tomarem um café juntas? Ou eram inimigas? Rendia um monte de história legal ainda essas lendas.








































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































