Minhas viagens de ônibus para a terra do meu bem querer talvez tenham se iniciado aos oito ou nove anos. Meu irmão mais novo sempre enjoava. Alguma vez, vomitava do balanço do transporte e eu também não ficava totalmente bem.
Como sempre moramos em Caucaia, a “rodoviária” era aquela velha rua perigosa do Antônio Bezerra que chamavam “Rodoviária dos Pobres”. Minha mãe segurando uma bolsa ou talvez com meu irmão no colo, revezando com meu pai. Nós todos dando tchau pra ele da janela. Meu pai nunca gostou muito de férias. Pra ele, o máximo de descanso era passar um sábado e domingo e olhe lá.
Ao entrar no ônibus, a mãe comprava pela janela um pacote de bulim, que, para quem não é do Ceará, são aqueles biscoitões duros de goma e umas seriguelas. Sempre ficava com a boca vermelha por causa do pó branco, hoje sei que era por causa da rosácea. Mas era bom! A água, a mãe trazia de casa, pedrada, numa garrafa de pet de dois litros.
Esses eram os lanches para os longos 300 km que nos separavam da cidade natal do meu pai. Mas, caso houvesse fome, era só comprar alguma coisa nas mais de dez paradas pelo caminho. Também parávamos para o almoço em algum restaurante na beira da estrada.
Meu irmão, curioso como meu filho caçula, repetia mais de vinte vezes a mesma pergunta: – faltam quantas paradas? Eu tentava descobrir aonde estávamos, perguntava pra minha mãe e ela repassava a pergunta para quem estivesse do lado. Dali, já engatava uma longa conversa com o vizinho de banco. Até o fim da viagem, era capaz de ter feito amizade com metade dos passageiros.
Eu, olhando a janela, amava ler as placas. Eram tantos riachos pelo caminho. Se a viagem fosse em março ou abril, embaixo das pontes, era água muita. Se fosse em dezembro, só mato e carnaubeira. Nessas horas, lembrava da matéria de Estudos Sociais, dos rios temporários. Era o rio Croatá, o rio Curu com aquela ponte grande. Os outros, não lembro bem.
As serras também eram uma atração à parte. Recordo a decepção de ver de perto as serras da Caucaia. Era só arbustos e rochas. Verde quase não tinha. As de Uruburetama, perto de Itapipoca, pareciam mais verdes.
As igrejas eram outros pontos de referência e a gente sabia até os padroeiros pelas placas. São Bento de Amontada, São Francisco de Cruz. E outros monumentos diferentes, como o arco de Bela Cruz e o buraco do sapo, em Itapipoca.
Chegando em Cruz, acabava o asfalto, por volta de três da tarde. Um mundaréu de piçarra. Meu rosto já pálido do sacolejo, o mau cheiro do banheiro na viagem longa. Desde as 9 da manhã na estrada. Era o pior trecho.
Por volta de 4 e meia, cinco horas da tarde, finalmente desembarcávamos. Todo mundo descia. Uns pegavam a jardineira pra Jeri. Nós, não. Guiados pelo meu tio Zé e a tia Carminha, que moram até hoje na rua principal, íamos até a casa deles. Era hora do banho frio de balde, trocar de roupa, comer uma merenda. Dali a pouco, assistir tv, jantar e seguir para a rede. Córrego do Urubu da casa dos avós só no dia seguinte, quando o tio levaria a gente de carro.
A textura e o cheiro da rede continuam os mesmos, seja qual for a casa. Talvez seja a água, ou o sabão. A penumbra da casa com paredes que não iam até o teto. O quarto ao lado da cozinha. O sabor da água de pote no copo de alumínio. É tanta coisa boa. Continua tudo lá.







































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































