Festa do padroeiro é a confraternização suprema de toda cidade pequena. Até em cidade grande, a depender do bairro, tem movimentação maior e tudo parece ganhar cores mais vivas. Tudo se atiça: as vendas, os amores, as brigas…
Só estive na festa de Santa Luzia, a padroeira de Jijoca de Jeri, em dezembro de 1993. As lembranças, os sons e os cheiros permaneceram, mesmo passadas três décadas. Em cada casa de parente, estava lá o quadro da santa com decoração de espelhos. Eu nunca entendi como ela podia ter olhos no prato e no próprio rosto. Mais tarde soube que ela foi martirizada e arrancaram os seus olhos. Achava a santa bonita, era tão jovem. Por causa dela, tenho uma prima Luzinete, que todo mundo chama de Luzia. São muitas as Luzias espalhadas por lá.
Aos dez anos, eu ainda não tinha liberdade para ir nas festas, mas via o alvoroço das primas mais velhas, todas muito perfumadas, maquiadas e na expectativa de quais seriam as bandas de forró e os gatinhos que estariam presentes para dançar. Os forasteiros faziam mais sucesso, os nativos nem tanto. Eu imaginava quando seria a minha vez de provar esses prazeres. Ficava na expectativa e atenta aos possíveis pares para o futuro. Pelo jeito, seria algum primo que dançaria comigo. No entanto, nunca fui muito boa para as danças. A timidez impediu o molejo de chegar em mim. Isso me atrapalha até hoje.
Em vez da casa velha do Córrego do Urubu, a hospedagem era em uma casinha menor, na rua, com um pequeno alpendre e uns cobogós na sala, perto do único posto de gasolina da cidade. Na festa, a família toda se mudava para a sede de Jijoca, para participar dos festejos. Afinal, meu avô era um dos principais celebrantes da zona rural. Para mim, era um pouco estranho, porque a lagoa na cidade não era tão limpa quanto a que era próximo da casa velha. Além de ser mais longe. O chão não era de areia branca, mas tinha lodo. Não era tão fundo, tinha uns matos em alguns lugares. Em apenas um lugar tinha umas tábuas para pular, quase em frente ao balneário, que era o epicentro das festas e dos namoros que nasciam.
A tia Terezinha era quem puxava a reca de meninos para a beira da lagoa. Minha mãe, quando ia para a casa da sogra, só vivia de casa em casa, visitando todo mundo que podia. Eu e meu irmão preferíamos ficar onde estavam os nossos melhores amigos, que eram os filhos dessa tia. Estávamos sempre juntos e, no Araturi, onde nós morávamos, éramos praticamente vizinhos.
Dezembro é tempo de manga e os caminhos para a lagoa na sede da Jijoca eram cheios de mangueiras. O cheiro da fruta apodrecida misturada com o de mato molhado até hoje me leva em pensamento para esse tempo. Minha tia sempre trazia várias para casa e ainda fazia uns dindins.
No nosso grupo vindo de Fortaleza, uma vizinha dela também veio para aproveitar a festa, a Socorro, mulher solteira e madura, que prometeu voltar outras vezes. Lembro dela falando das vantagens de não ter marido e filhos. A liberdade de poder viajar para onde quisesse, sem precisar dar satisfação, nem se preocupar com os querer de crianças. As casadas com filhos pareciam se ressentir daquela conversa. Talvez invejassem essa liberdade. Em toda casa sempre alguém perguntava se ela tinha filhos, namorado, marido e o porquê dessa escolha por ser sozinha. Eu, criança crescida, ficava reparando nessa disputa velada, nesse despeito. Isso ainda acontece tanto…
De noite, o parque funcionando perto da igreja. A roda gigante e o barco eram os meus preferidos. O espalha brasa, eu só experimentei ir uma vez, dava enjoos, tontura. Dessa vez, eu tentei andar nos carros da autopista, a convite do meu primo quase irmão, o Junior. Não saí do canto e desisti de dirigir até hoje. Toda vez que eu pego em um carro lembro dessas vezes em que não consegui guiar algo tão simples. Quem sabe um dia?
Para a missa, ninguém ia. A gente queria era ficar ao redor da igreja, conversando, rindo, correndo. Nossas mães nunca foram muito religiosas. Lá fora, na feira, eu perturbei por uma maçã do amor. Bonita, brilhosa, mas tão dura. Machucou minha boca e eu ainda fiquei com as mãos sujas do melado. Para piorar, a roupa ainda era branca. – Desastrada, estragou a roupa nova! – minha mãe falou. Quase apanhei nesse dia. Depois, voltar para casa, lavar os pés e dormir.
O som alto das bandas no balneário, com os forrós do momento, embalavam os sonhos da gente, enrolados com o lençol nas redes rústicas e brancas. Mastruz com Leite já era o auge, junto com bandas de nomes estranhos, como Cavalo de Pau, Mel com Terra… Eu adormecia pensando se ainda ia dançar com alguém.
Nunca mais voltamos nesse tempo para os festejos. O ano novo era muito melhor. Um dia eu volto lá em dezembro de novo para renovar essas lembranças. Talvez dessa vez eu não me suje com a maçã do amor, mas o meu Joãozinho, muito provavelmente seguirá esse caminho…







































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































