Antes de mim, vieram dezenas de netos. Depois de mim, outras tantas dezenas. Passadas mais de duas décadas de sua partida, a família grande do seu Doca Ribeiro continua crescendo. Em Jijoca e fora dela porque temos parentes em vários Estados.
O que eu achava mais curioso era que meu avô paterno não falava meu nome como as outras pessoas. Sempre pronunciava os dois eles. Achava diferente, mas não tinha coragem de corrigir. Fica assim mesmo. Lembro também da mão dura, o aperto forte na hora da bênção, o olho esverdeado. Os cabelos castanhos claros com alguns fios brancos apenas nas têmporas e na nuca…
Nos seus últimos anos, a rotina se repetia. O acordar no horário de sempre, antes do sol, capinar um pouco, tomar seu banho no córrego, nos fundos de casa, sem se importar com o vai e vem dos veículos que iam para a Lagoa ou para a Jericoacoara. Depois, voltar e cochilar no tucum da sala, arrastando sempre as alpargatas de couro, mascar fumo. Aos domingos, ligar o velho rádio, abrir a janela do quarto que já foi mercearia e se barbear com as lâminas e o aparelho de ferro.
Aos domingos, gostava de ir a cavalo para a rua, como chamava o centro da cidade e comprar carne para o almoço. Geralmente, aproveitava para rever os amigos e beber um pouquinho. O cavalo sabia bem o caminho de volta e sempre trazia meu avô.
Nas poucas vezes que conversamos, eu perguntei qual era o seu livro preferido da Bíblia, porque ele presidia as celebrações da igreja católica naquela região. Fazia os sermões, as orações quando alguém falecia, as novenas… O prédio inclusive foi doação dele. Hoje, nem lembro mais qual foi a resposta. As recordações são as das fotos, os seus atos e o que meu pai e meus tios contavam.
Muitos anos depois da sua partida, soube que foi artesão. Só assim liguei o cheiro forte que vinha do quartinho ao lado do alpendre, trancado à chave. Nas poucas vezes que entrei, notei que era uma grande bagunça com selas, chapéus e pedaços de couro.
Bem antes de eu nascer, ele fazia tamancos de madeira, sapatos, arreios, cadeiras, selas, chapéus e vendia nas feiras de todos os municípios da região. Minha prima Maria contou que ele ia a cavalo até Bela Cruz, a cidade dela, aonde morava minha tia Evanira, uma das filhas dele mais velhas, para vender suas coisas e às vezes trazia ela para passar as férias.
Também foi comerciante, mas o caderno do fiado e seu bom coração o levaram a mudar de atividade. Já nos tempos dos filhos mais novos, pescava. Tinha um paquete e um rancho na beira da praia, um pouco depois de Jeri. Meu pai e outros tios costumavam acordar cedo da madrugada para caminhar por cerca de duas horas até lá.
Outro costume dele descobri ao mexer embaixo da máquina de costura desativada, pertinho da rede em que ele passava as tardes. Alguns livros muito antigos preenchiam duas caixas. Não lembro por qual motivo abri uma delas e vi que eram livros escolares. Mais tarde, um amigo do meu pai me contou que a casa do meu avô era o ponto de apoio do projeto Movimento de Educação de Base (MEB), antecessor do Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral), que alfabetizou tantos adultos nos rincões do Brasil. Meu avô era um dos ativistas da educação e também do movimento social e político na Igreja Católica. Outra faceta sua que só descobri mais de uma década depois que ele se foi.
Um dos meus livros preferidos da vida – Outros Cantos – da Maria Valéria Rezende, tem esse movimento pela educação, liderado por religiosos e leigos, o centro do enredo da história, nos anos 1960 e 1970. Na época em que o li pela primeira vez, não entendia os arrepios e a profunda identificação com a história. Hoje, entendo que tinha a ver com ele.
Sua casa, mesmo sem energia elétrica ou água encanada, sempre teve livros nas estantes do quarto, minha prima também contou. Eu já sabia do estímulo aos filhos para o estudo. Mesmo que, nesse tempo, a escola fosse a casa de uma moça da região que tinha apenas um pouco mais de estudo que seus alunos. As mulheres também deveriam estudar, ao contrário da regra da maioria dos pais daquele tempo.
Segundo minha prima, um dos meus tios inclusive guardava na estante do meu avô, nos seus tempos de moço solteiro, uma coletânea de cartas de amor, com vários modelos para conquistar as garotas. Suspeito que meu pai tenha levado o livro para São Paulo porque as cartas que ele escreveu para a minha mãe eram muito rebuscadas.
Meu avô parece que também gostava de conversar com os bichos. Já nos seus últimos anos, depois da partida da minha avó, com quem foi casado por 59 anos, o flagrei conversando com a vaquinha Mimosa. O animal tinha pertencido a ele, mas ele o vendeu para o genro que morava quase em frente. Mesmo assim, toda tarde, a vaca deitava na calçada e esperava seus carinhos. Essa é a lembrança que ficou mais viva e forte em mim. O seu rosto no caixão preferi apagar. Gosto de lembrar das pessoas quando vivas, como aprendi com meu pai. E ele vai permanecer vivo por todo sempre.








































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































