Minha avó Maria nunca gostou muito de viajar. Como uma mulher acostumada às coisas práticas, ela não era de muitas conversas, nem de ficar relembrando o passado, festas das épocas de jovem ou coisa assim. Convivemos por quase uma década, sempre na época das férias de julho e na Semana Santa. Dos cinco aos 15 anos, quando ela partiu em definitivo.
Com ela, aprendi que se eu pegar os pintos da galinha, vou sofrer as consequências. Na verdade, ela me disse isso, mas eu teimei e a galinha me bicou perto do olho. Também sempre a ajudava a alimentar as bichinhas. Ainda desse universo dos galináceos, aprendi quem eram os pichilingas, porque de tanto ela lidar com as galinhas, acabou com alguns na cabeça. Em dias de tédio, ela pedia para eu procurar. Eu gostava tanto de mexer naqueles cabelinhos ralos, todos muito pretos e lisos! Com 70 anos, ela ainda tinha poucos fios brancos, diferente da minha avó Francisca, totalmente grisalha desde que eu me entendo por gente.
O nariz grande e adunco e a fartura de carnes parece que acabei herdando um pouco. Embora o meu seja uma mistura dos muitos narizes grandes de todos os meus parentes. Infelizmente, todos tinham essa característica. Era muito difícil que o meu fosse menor.
Além de mim, a minha avó Maria tinha uns 90 netos ou mais. Na verdade, eu nunca soube a real quantidade porque sempre era atualizada. De filhos, ela pariu 16. Restaram 14 que se tornaram adultos, dois morreram bebês. Meu pai é o caçula.
Cearense do Guriú, assim como todas as mulheres simples das cidades pequenas, ela levantava junto com as galinhas, antes do Sol nascer. Eu, nascida e criada na cidade, quando me levantava ali pelas seis horas da manhã já a encontrava em plena atividade. O café estava na mesa, as tapiocas no prato. Quando eu, meus pais e meus tios da cidade íamos para lá, éramos tratados como pessoas muito importantes. As redes muito alvas e rústicas tinham um cheiro bom. Tinha sempre pão, margarina, frango ou carne no almoço. Aqui, acolá, um doce de caju, goiaba ou de mamão com coco. Para não encardir as redes, todo mundo tinha que lavar os pés muito bem antes de dormir. Como minha mãe era a única nora paulista e não dormia de rede, minha avó comprou uma cama especialmente para ela, quando veio conhecer a família. Essa cama ficou lá até depois da partida dos meus avós. As coisas eram feitas para durar.
Além dela, naquela casinha que ainda resiste, embora não pertença mais à nossa família, moravam o meu avô Doca Ribeiro, que na verdade se chamava Raimundo Nonato de Oliveira, e o meu tio João, que era solteiro.
Das histórias que a vó Maria gostava mais de contar era das travessuras dos filhos mais novos, inclusive o meu pai. Dele, ela sempre dizia que era muito fraquinho e magro. Só depois que ficou forte. Além daquela foto pintada tradicional do casal, em destaque na sala, era do meu pai o outro retrato grande, em moldura decorada, com as bochechas muito rosadas. Era costume dela colocar meu pai e meu tio Lino nas pernas dela já adultos e pais de família, quando eles a iam visitar. Meu pai teve paralisia infantil entre um e dois anos de idade. Entretanto, como a sequela era muito pouca, ela nunca admitiu que tinha sido a doença a limitar um pouco os movimentos do braço. Para ela, era culpa de um pisão que uma das filhas tinha dado nele, durante a noite, enquanto estava tudo escuro.
Assim como a vó Francisca, minha vó Maria também não gostava de sair de casa e nem de ir pra igreja. Já meu vô era o encomendador oficial de todos os mortos. Era o celebrante de todos os domingos. Quem tirava as novenas. O peso dela era meio limitante e depois de uma queda, ela ficou mais cuidadosa com os caminhos e evitava os perigos. Embora comesse pouco, era uma daquelas velhinhas redondas e baixinhas. Costumava comer em uma bacia, dizendo que era para não ter fastio, sentada no tucum de corda da cozinha. Fecho os olhos e vejo direitinho a cena.Como ela tinha uma multidão de filhos e netos, ganhava muitos presentes, como colchas de cama, toalhas de mesa, louças, vestidos, redes. Essas preciosidades, ela guardava trancadas em um quarto miúdo, ao lado da camarinha com apenas duas redes e um pote, que era o quarto simples do casal, entre a sala e a cozinha, pelo qual durante o dia todos passavam. Nesse quarto com chave, onde ela guardava seus tesouros, só ela entrava. Eu mesma nunca consegui descobrir os seus mistérios.
Meu tio João morou com meus avós desde que voltou de São Paulo, um pouco antes do meu pai, nos anos 1980. Ele, por ser muito sozinho, desenvolveu uma depressão profunda que o levou definitivamente num dia de eleição, em outubro de 1998. Ele e minha avó Maria eram muito ligados um ao outro e ele costumava brincar que quando morresse, viria buscar sua velhinha. Foi o que aconteceu. Em dezembro desse mesmo ano, ela caiu doente. No último dia de 1998, ela faleceu.
Desde esse tempo, a passagem de ano pra mim ficou marcada pela lembrança da sua morte. No caixão, ela, com um vestido azul, parecia dormir, embora seu nariz tivesse ainda maior. Por causa dela, acompanhei o primeiro e último enterro de pessoa querida até hoje. Foi um dia muito triste, quando descobri que meu pai, sempre um poço de brincadeiras e alegria, também tinha lágrimas.
Nessa virada de ano, em 1998, peguei pra minha vida evitar sempre os enterros e velórios. Prefiro ter a imagem da pessoa viva na mente. Dessa maneira, os únicos entes queridos de quem avistei os rostos no caixão foram mesmo esses meus dois avós.
O meu avô Doca Ribeiro ainda ficou por aqui mais dois anos e partiu em 2000. A velha casa do Córrego do Urubu foi vendida. O dinheiro, dividido entre os 14 irmãos. Ainda segue de pé no caminho para a Lagoa do Paraíso, em uma encruzilhada.
Do tronco mais antigo, dos filhos de Doca e Maria, ainda restam 11 irmãos. Seis moram em Jijoca, um em Amontada, outra em Bela Cruz, outro em Camocim e mais dois em Fortaleza.







































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































