Desde os meus doze anos, tento entender o desenho que as estrelas formam no céu. No meu antigo bairro da Cohab, bastava passar na praça de noite para ver um céu muito estrelado, possível tanto de identificar as constelações ou imaginar, como se fosse um jogo de ligar os pontos. Nessa praça, antes de urbanizarem, ainda havia muita areia, o que com um pouco de imaginação, nas noites de lua cheia, fazia parecer uma praia.
Naquele tempo, eu ainda não conhecia como era o mar de noite. Quando eu ia com meus pais para a praia, geralmente a do Icaraí, em Caucaia, a gente voltava cedo. No mais tardar, umas 14h. Almoçava no Assis, o Rei da Paçoca e voltava, bêbada de mar, para dormir o resto do dia e acordar de noite com as costas ardidas.
Casa de praia eu só fui com uma turma de amigos depois da maioridade e, mesmo assim, não era tão perto da praia. O Icaraí não tinha mais areia. A praia tinha sido degradada. A primeira constelação que aprendi a achar foi a do Cruzeiro do Sul. Talvez com meu pai ou com os livros de ciências. Depois, soube que era perto dela que dava pra ver a maior de todas que conheço até hoje: a de Escorpião. No centro, uma estrela vermelha é o seu coração. Nunca mais lembrei de procurá-la no céu. Tenho saído pouco de noite. E na cidade, com tanta luz, não é mais tão fácil de achá-la. Entretanto, toda vida que tenho oportunidade de estar sob um céu escuro, é ela que tento localizar.
Aprendi que no mês de abril ela parece estar mais vibrante, nunca entendi o porquê. Isso vem de observar. Especialmente, próximo ao 22 de abril, o Descobrimento do Brasil. Por que será? Não tem nada a ver com o zodíaco, porque se assim fosse, ela deveria ficar mais visível era no fim de outubro e no mês de novembro.
Uma vez, em um julho, quando viajei para a casa do meu pai pela primeira vez de carro, ficamos tão impressionados com a imensidão de um céu no breu da estrada sem nenhum poste, que paramos ao lado dos cataventos de energia eólica, próximo à Itarema, em plena CE-085. Era mais de meia noite e saímos para olhar o céu. Consegui achar o escorpião com o coração em chamas. Sempre lembrando a constelação preferida.
Essa mesma beleza, eu já conhecia das noites na velha casa de meu avô, quando a primarada se reunia de frente e ficava sentada na calçada, embaixo de um grande coqueiro que ainda está lá. Já adulta, pude ver a constelação em algumas viradas de ano, em Jeri, quando a turma grande subia a duna do Por do Sol para receber o ano-novo e depois andar na beira da praia, observar o vai e vem do mar ou tentar achar alguma festa animada, até dar o horário de os carros voltarem pra cidade.
Muitos anos depois da última vez que estive em Jeri de noite, falei pra minha filha mais velha e tentei apontar onde ficava a minha constelação preferida. Ela, aos oito anos, não conseguiu pegar as referências e desenhou um pirulito com a multidão das estrelas da noite. Talvez fosse o excesso de doces durante o dia porque meu pai tem uma mercearia e ela vivia com um olhar pidão entre as prateleiras de pirulito e Nucita. Cada qual com suas constelações.








































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































