SALETE EM SOCIEDADE

As porteiras da morte

Desde que meu avô paterno faleceu, nunca mais pisei em um cemitério para sepultar um parente. Do velho campo santo de areia frouxa em Jijoca, lembro muito pouco. Foi em 2001. Eram por volta de três da tarde, fomos todos na carroceria de alguma caminhonete. Longe, empoeirado, o caminho. O sol a pino. Talvez tenha sido o primeiro e único enterro de alguém da família que eu tenha ido.

As porteiras da morte dos Oliveira se abriram no fim dos anos 1990, com a partida do meu tio João, aos 39 anos. Uma depressão profunda o levou aos poucos. Morava com meus avós paternos desde que voltou de São Paulo, dez anos antes. Nunca se casou, nem teve filhos. Namoradas, nunca vimos. O alcoolismo também ajudou nesse processo triste de partida. Prometeu que viria buscar a mãe. Eram muito ligados. Cumpriu. Em dezembro, no último dia desse mesmo ano, minha avó Maria se foi. A mancha na virada de 1998 para 1999 se tornou uma nódoa difícil de tirar.

Quando começou o ano de 1999, nas primeiras horas já estávamos no caminho de Jijoca para o velório. Meu tio Antônio levou a gente no carro dele. Chegando lá, a morte, com seu cheiro de flor, dominava a casa. Minha avó no caixão vestia azul. Seu nariz adunco parecia ainda maior. Foi a primeira vez que eu vi meu pai chorando, assim como vi umas carpideiras desconhecidas. Eu não consegui chorar e fui procurar flor para ofertar pra ela. Achei um caju no caminho e estraguei minha roupa. Dessa vez, eu não quis ir para o enterro. Meu pai chorando era uma cena muito pesada para mim. Fiquei exausta com tudo aquilo.

Três anos depois, chegou a vez do meu avô fazer a viagem. Depois que a esposa faleceu, fingiu força, chegou até a dizer que poderia se casar novamente, mesmo com quase 80 anos. Mas a verdade é que foi murchando. Também, não era para menos. Os dois ficaram casados por 59 anos. Um AVC fulminante o levou em menos de meio dia. Sempre falava que não queria dar trabalho a ninguém quando idoso. E assim foi. No dia anterior, fez todas as atividades de sempre. Capinou, tomou seu banho no Córrego, mascou fumo, se alimentou. Caiu por causa do tal derrame quando se levantou de manhã cedo. Faleceu perto de meio-dia.

Não lembro se antes ou depois da partida do meu avô, o outro filho solteiro de Fortaleza chegou para morar na velha casa da beira do Córrego. Tio Moisés, assim como o tio João, morou em São Paulo muitos anos. Por lá, teve dois filhos de duas mulheres diferentes e se viciou em álcool. Pouco depois do tio João, também veio embora para o Ceará. Ficou em Fortaleza, pelo Bom Jardim, onde morou um tempo sozinho e depois, com uma mulher. A cachaça o deixava fora de si a maior parte do dia. Ele se tornou aqueles bêbados que passam o dia na rua, vagando. Com essa vida, adquiriu uma pancreatite, uma úlcera e uma tuberculose. Tirou uma parte do estômago, passou um tempo internado em Maracanaú por causa da tuberculose, teve uma diabetes e foi proibido de beber.

Como a mulher com quem ele morava era evangélica, para continuar com ela, precisaria se casar. Ele preferiu continuar solteiro e decidiu ir embora para o interior, morar na casa dos pais. Longe da bebida, engordou, ficou corado. Mas, por algum motivo que até hoje ninguém soube, foi definhando e uma queda o levou em definitivo. Foi o terceiro morto dessa leva.

Alguns anos depois, minha tia mais velha, a Lili, partiu não sei por qual motivo. Junto com ela, se foi boa parte da memória escrita e fotográfica da família, que já era pouca. Soube um dia desses que ela guardava a fotografia pintada do casamento dos meus avós, de 1939 e a do meu pai, com 18 anos, que ele enviou de São Paulo. As duas ficavam em cima da porta da sala. Os pregos ainda permanecem. Uns anos depois da morte da minha tia, tudo foi jogado fora. Soube por uma prima. Essa parte da família, eu não tenho tanto contato.

Depois, minha prima Igardene Fonteles foi embora, a mais jovem de todos. Professora, foi uma das primeiras na nossa família a concluir o Ensino Superior. Morreu por eclâmpsia, assim como o filhinho. Ela estava com sete meses de grávida. Era seu primeiro filho, muito planejado e só concebido depois de conseguir um bom emprego e terminar a faculdade. Era muito querida. Hoje, nomeia uma escola na cidade.

Desde então, a porteira da morte dos Oliveira permanece fechada. Ainda bem. Entretanto, nessa década, foi aberto um novo portal, tão triste quanto: o do esquecimento, por consequência do Mal de Alzheimer. Dos 14 irmãos, dois estão perdendo a memória. Três estão do outro lado da existência. Restam nove vivos. Quero aproveitar ainda a memória boa destes para saber das histórias do passado. Espero que dê tempo.

Facebook
Twitter
LinkedIn

Apoio Social

SALETE EM SOCIEDADE

Veja Outros Posts Recentes

Por minha vasta convivência profissional durante anos com a sociedade de Fortaleza, aprendi a captar notícias em suas mais preciosas e seguras fontes. Por perceber que no contato com esses registros sociais estava a fonte de minha vocação, resolvi criar meu próprio espaço na mídia virtual, reunindo uma equipe capaz e competente.

© 2025 Salete em Sociedade – Todos os Direitos Reservados