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Pinah: A Passista que Transformou o Carnaval em Encanto Mundial

No calor vibrante do Carnaval carioca dos anos 1970, uma figura dançava com uma presença impossível de ignorar: Maria da Penha Ferreira Ayoub, conhecida simplesmente como Pinah. Com energia magnética e uma ginga singular, ela não apenas dominou a Avenida, como atravessou fronteiras e entrou para a história ao encantar o então jovem príncipe Charles durante sua primeira visita oficial ao Brasil, em 1978. O episódio tornou-se símbolo de um Carnaval que mistura ritmo, cor, identidade e alegria popular com naturalidade única.

Pinah não surgiu como celebridade pronta. Ingressou no universo das escolas de samba ainda na década de 1970 e rapidamente se firmou como um dos grandes nomes da Beija-Flor de Nilópolis, escola que vivia um momento de ousadia estética e potência criativa sob a liderança de Joãosinho Trinta. Sua postura imponente e a ancestralidade africana que carregava no corpo e no gesto criavam um contraste poderoso com o brilho da festa, e foi justamente essa força que rompeu o protocolo no dia em que o príncipe inglês foi recebido no Palácio da Cidade, no Rio de Janeiro.

A cena atravessou décadas e se tornou parte do imaginário cultural brasileiro. Em meio a um coquetel formal, entre ternos, vestidos elegantes e rituais diplomáticos, Pinah surgiu com a leveza do samba-enredo autêntico. Charles, então com 29 anos, deixou de lado a rigidez da realeza e arriscou alguns passos, visivelmente curioso e entregue à música. O contraste entre os movimentos ainda inseguros do herdeiro da coroa britânica e a cadência firme e orgânica do samba carioca transformou o encontro em imagem histórica, amplamente reproduzida pela imprensa internacional.

A partir dali, Pinah foi eternizada como a lendária “Cinderela Negra” do Carnaval, título que carrega até hoje com humor e simplicidade, chegando a brincar que “nem sabe sambar”, apesar de ocupar um lugar definitivo na memória da Beija-Flor e da folia brasileira. A própria escola incorporou essa narrativa em seus versos, transformando o episódio em símbolo de orgulho, identidade e afirmação cultural.

Mas a trajetória de Pinah vai muito além daquele momento com a realeza. Ao longo dos anos 1980, sua história se entrelaçou com os grandes triunfos da Beija-Flor, participando de enredos que exaltavam a ancestralidade negra, a cultura popular e a força das comunidades que sustentam o samba. Sua presença na avenida ajudou a consolidar uma estética que unia espetáculo, discurso e emoção, ampliando o alcance simbólico do Carnaval.

Após décadas intensas sob os holofotes, Pinah se afastou gradualmente dos grandes destaques, mas nunca do Carnaval. Hoje, vivendo em São Paulo, permanece ligada à festa como referência e conselheira, contribuindo para a formação de novas gerações de sambistas. Seu legado segue vivo, lembrando que o Carnaval é, acima de tudo, um espaço de encontro, potência cultural e reconhecimento.

O encanto que Pinah levou ao samba é mais do que um episódio curioso envolvendo um príncipe: é a prova de que a cultura popular brasileira tem força suficiente para atravessar fronteiras, dialogar com o mundo e se transformar em um dos símbolos mais apaixonantes da nossa identidade.

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