Depois que eu comecei a poder comprar livros, foi um caminho sem volta. Ainda hoje, se vejo as opções dos sebos que costumo frequentar, ainda faço o print do que compraria. Mesmo que minha estante esteja abarrotada, assim como o móvel da sala, sempre tem algum livro que me falta. A diferença é que hoje eu aprendi a dar por falta de outras coisas mais práticas, como utensílios para a casa, roupas e calçados e estabelecer prioridades.
O primeiro exemplar dessa extensa coleção foi comprado com o dinheiro que meu pai me deu de presente quando eu fiz 13 anos. Por essa época, meu repertório era limitado ao que aprendi com minha mãe. Entre os poucos livros que não faziam parte de enciclopédias, a maioria eram religiosos das Edições Paulinas e foi lá que eu escolhi meu presente.
Era um compilado de prosas poéticas de um escritor francês chamado Michel Quoist – “Fale-me de amor” com apenas uma rosa em uma capa branca. Os temas eram sobre o amor de namorados, de casados, de amigos, voltado aos filhos, a caridade que ajuda a quem precisa, o celibato dos religiosos, o divórcio…
Desse livro, foram muitos os trechos copiados com a letra boa – que não tenho mais – dos tempos do Ensino Fundamental nas agendas que eu fazia de diário nos anos 1990. Foi ali também que eu aprendi as primeiras lições sobre os sentimentos fortes da adolescência.
Alguns anos depois, já no Ensino Médio, guardava minha semana de merenda da escola para comprar os livros de edições simples e fuleiras, que logo descolavam, do best seller Paulo Coelho, encartadas em um jornal impresso de Fortaleza. O boom dos livros comprados com o próprio suor só surgiria muitos anos depois.
Ao lado do primeiro jornal em que trabalhei, havia um sebo caro, com várias edições raras. Durante o mês todo, eu visitei aquele lugar várias vezes para escolher qual presente eu me daria por ter me formado e conseguido o primeiro emprego como jornalista, já no primeiro mês depois da formatura.
Depois de muito pensar e seguir indecisa, a opção que fiz foi pela saga “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo, com sete livros de capa dura vermelha, com relevo, letras douradas e fotos do autor nas primeiras páginas. O investimento, que hoje, não me recordo de quanto, talvez tenha sido de quase 20% do meu primeiro salário. Eu tinha fascínio pelo autor desde que vi, quando criança a adaptação como minissérie dos anos 1980, com Glória Pires como Ana Terra e Tarcísio Meira como Capitão Rodrigo.
Por aquela época, eu ainda tinha firmado comigo o propósito de comprar apenas os livros que eu conseguiria ler. Para cumprir a promessa, dediquei os quatro primeiros meses deste contrato de trabalho a ler cada um dos sete exemplares e só comprei outro livro com essa coleção concluída.
Passados mais de 20 anos desse tempo bom, eu perdi as contas de quantos bons livros estão na fila infinita de leituras. Para evitar os gastos desnecessários, de vez em quando paro de seguir meus fornecedores e escolho, aleatóriamente, qual será o da vez. No entanto, como leio devagar, essa conta nunca fecha.
Então, a cada fim de ano, eu reavalio a estante e separo o que nunca lerei, assim como o que não será relido. A reflexão amarga é que talvez não haja tanta vida assim para ler tudo, mesmo os exemplares que permanecem, ano após ano, na estante. O apego também me impede de fazer grandes doações. E o acúmulo permanece ali no canto do quarto.






































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































