Não era de hoje que lhe observava os passos. A primeira vez tinha sido no supermercado. A moça de pele escura, com um véu colorido na cabeça cheio de pequenas moedas douradas e uma roupa de cores vibrantes em cetim. Ao lado, o marido lhe fazia par, com uma blusa de mangas compridas amarela, um colete verde bandeira e uma calça bufante vermelha. Os dois brilhantes desconhecidos pegando frutas nas gôndolas do Assaí atacadista.
Naquele dia, não lembro bem o que tinha ido comprar, mas sei que era de dia. Como moro no terceiro andar, meu prédio não tem escadas e não gosto de carregar muito peso, termino por ir muitas vezes na semana ao supermercado. Tratei de disfarçar que estava observando, mas foi difícil não acompanhar o caminho do casal. Na hora, imaginei que fossem indianos. A moça parecia estar vestindo um sári como o da novela Caminho das Índias. Poderia até ser porque temos alguns estrangeiros nas proximidades, devido ao porto do Pecém. Depois que os dois saíram pela porta automática, cuidei de prestar atenção na minha vida e na lista de compras.
O tempo passou e em um dia normal, indo deixar meu filho caçula na escola, encontrei novamente a moça. Dessa vez, ela estava com um véu amarelo e um vestido longo pink. Ao seu lado, o filho, mais miúdo que o meu, vestia a mesma farda. Segui meu caminho para a academia e lá do alto da passarela para pedestres, acompanhei seu caminho com a roupa tão bonita, na direção da Lagoa do Tabapuá. Um cachorro caramelo lhe acompanhava.
Fiquei curiosa e, ao chegar em casa, fui pesquisar sobre comunidades estrangeiras em Caucaia. Não encontrei nada sobre indianos, mas descobri que ali perto vivia uma comunidade cigana e, talvez o marido da moça fosse o seu coordenador. Pelo menos, a fisionomia era parecida.
Nunca falei com uma cigana mais do que quatro palavras e quase fugindo, porque era um grupo numeroso de mulheres que pedia insistentemente para ler a mão de quem passasse na praça José de Alencar. Naquele tempo, eu tinha muito medo de previsões do futuro porque era algo maldito para a minha religião. Por isso, a fuga. E também porque algumas jogavam pragas para quem não queria saber o futuro.
Todos os dias, torcia para encontrar a moça novamente e, quem sabe, criar coragem para cumprimentar e perguntar se existe alguma reunião para falar da sua cultura para as pessoas. O que sei sobre os povos ciganos é que eles estavam presentes no Ceará há muitas décadas, especialmente nas regiões de Sobral e nos sertões, com seus acampamentos, barracas e toda uma cultura própria. Mas conversar mesmo, para saber mais, ainda não tive oportunidade.
Pois semana passada, criei coragem para dizer bom dia e sorrir para a moça. E nesta terça, cruzei meu olhar com o dela. Ela era ainda mais bela de perto. Seus olhos verdes contrastavam com a pele escura. Logo acima do nariz, um ponto vermelho discreto, o terceiro olho, seguido de outros pontinhos vermelhos e do kajal preto marcante, realçando ainda mais os olhos claros.
Ela virou as costas e seguiu com seu cachorro caramelo no rumo da Lagoa e eu subi a passarela para minha caminhada de sempre. Vou tentar não deixar passar a próxima oportunidade de conversar com ela. Será que ela gosta do método de ensino da escola em que os nossos filhos estudam? Pode ser um bom começo de interação… Vou pensar melhor depois.





































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































