No meu grupo de leitura com amigas, estamos lendo Querida Tia, da francesa Valerie Perrin. Apesar de ter me atrasado um pouco com esse livro, conforme a leitura vai avançando, chegam vários questionamentos. Até onde li, a sobrinha está cada vez mais perplexa por não conhecer a única tia, com quem tinha um convívio até relativamente próximo. As reviravoltas são muitas e se eu começasse a contar o quanto já fiquei com a boca aberta de espanto ao ler apenas um terço desse livro, ia terminar por dar algum spoiler, então vou me ater a alguns pontos que me deixaram pensativa.
Como sempre me ocorre, toda vez que estou envolvida com minhas leituras busco algo que tenha a ver comigo. Apesar de não morar na França do pós-guerra, como a tia da protagonista, assim como a Agnès do livro, também já me surpreendi bastante ao conversar com alguns parentes próximos, a quem eu julgava saber muito sobre o passado deles. Quando voltamos 50, 60 anos, infelizmente, trombamos com tempos ainda mais difíceis para as mulheres. Se na França, para meninas pobres, só havia a possibilidade do casamento ou aprender um ofício, nos rincões do Nordeste, longe das grandes cidades, a única possibilidade além do casamento era ficar solteira para cuidar dos pais em sua velhice. Ou seja, deixar de ter a própria família, em prol do bem de outras pessoas que, na maioria das vezes, tratavam os filhos com violência e sem nenhum tipo de afeto.
Era tudo uma grande loteria, porque poderia acontecer, como de fato ocorreu muitas vezes, que o marido escolhido para sair da casa dos pais se tornasse um beberrão, um jogador inveterado ou um agressor. Porque ser traída era quase certeza. Eram tempos que os maridos se divertiam nos cabarés e era comum manter, pelo menos, duas famílias. Isso sem falar nas muitas gravidezes, porque era normal ter mais de dez filhos. Quem garante que essas crianças nasceram todas do amor do casal? Ninguém nem sabia o que era consentimento. Era dever da mulher ceder. Então, talvez ser a que ficou para tia, em muitos casos, fosse um livramento de coisa bem pior.
Voltar à história das nossas antepassadas mulheres, sejam tias, avós, primas, muitas vezes, é um exercício de compaixão porque, para a maioria, era muito difícil dar um basta em relacionamentos. O preço a pagar era muito alto. Que o digam as mulheres abandonadas ou que pediram o divórcio nos primeiros tempos da lei, nos anos 1970.
Conversando com pessoas mais velhas, vi desde mulheres que optaram por nunca mais se relacionar, como com outras que tinham sua vida devassada pelos vizinhos. Os filhos não deveriam sequer conversar com as crianças dessas mulheres, que estariam destinadas ao crime ou à prostituição. Conversar com uma tia ou mesmo investigar como era a rotina da nossa ancestralidade feminina com outros parentes pode ser uma experiência e tanto. Um choque de realidade que pode revelar o nosso privilégio hoje.
Mesmo com os muitos casos de feminicidio, ainda é possível pedir o divórcio, arranjar um trabalho e voltar a sonhar. Já para várias mulheres, hoje na casa dos 70 e 80 anos, foi preciso esperar a viuvez para ter um pouco de paz. No entanto, as memórias ruins, tanto delas como dos dos filhos desses relacionamentos, podem permanecer por ainda muito tempo.
É preciso estar sempre atento aos movimentos que pedem a volta desse passado. Porque o pacote não inclui apenas colocar um vestido rodado e florido para limpar a casa e aderir ao estilo das mulheres dos anos 1950. Nas redes sociais, existem vários perfis que propagam esse modelo de vida. Só não se fala tanto é sobre o que se pode perder, ao abrir mão da própria autonomia em nome de copiar a vida das influencers que voltaram ao lar.






































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































