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De médico para médico: uma homenagem

Com uma escrita sensível e cheia de afeto o cardiologista José Maria Bonfim compartilha com o nosso público uma bonita homenagem ao grande médico pediatra Alberto Lima. Confira!

Dr. Alberto Lima – Pioneiro – Um Tributo – Ensaio.

Ao partir, Alberto Lima, nos deixa num vazio imenso, no traquejo médico. No múnus de cuidar. Na arte de olhar para o outro. De enxergar a sua dor. De sentir, o seu gemido. De exercer o exercício da paciência da ausculta e da escuta. De se acantoar o raciocínio logico. De tomar o doente nos seus braços, e sentir a sua respiração curta. A sua ânsia por um alívio de seu tormento. Uma janela que se abra para sentir um raio de esperança.

A Medicina é o sagrado exercício de cuidar do outro. De zelar pela vida e pelo bem-estar do outro. A missão plena de um médico é servir. Tão somente servir. A parábola do bom samaritano resume, condensa todo tratado médico. Um acabado e burilado, Código de Ética Médica. O cuidar sem saber quem é. Sem atilar de onde brota o gemido. De onde brota a ânsia que tortura. E esgota a vida. (Lc 10, 25-37).

A doença nos humilha. Nos constrange. Nos sufoca. Nos massacra. O médico é este anjo que brota na madrugada escura. Na noite infinita do medo e da dúvida. O bom samaritano somente partiu quando agasalhou a pobre vítima. O médico é aquele que se condói do outro. E se condói de si mesmo por não chegar ao outro.

Em um domingo distante. Bem distante. Eu, com, minha filhinha, de pouco mais de dois anos. Ela ardia em febre. E medicamento algum aplacava. A primogênita Maggy. A mãe aos prantos. E ela quase sucumbindo. Uma doença aguda. E inquietante. Nosso vizinho, um amigo, médico, nos socorrera. Mas a criancinha delirava. Ardia em febre. Lembrei-me do Alberto Lima. Meu colega no Hospital Geral de Fortaleza. Parecia ouvir, uma voz me dizendo: não deixe o sol nascer, sem que alguém socorra sua filhinha. E sabia que ele morava distante. Mas fomos. E fomos bater na casa do Dr. Alberto. Noitinha. Ele estava na missa. Parece-me que era a Igreja de Nazaré. Esperei por ele. A casa quieta. A rua pacata e silenciosa. E eu cheio de confiança. No silencio da minha dor, nutria uma torrente de imensa certeza. Iria dar certo.

Ele vinha da missa. Cheio de Deus. Abraçou-me, como sempre. Acolheu-me. Sedou a minha angústia. Deu o diagnóstico correto. Orientou no tratamento e seguimos em frente. Maggy é médica, hoje, que cuida com carinho dos seus pacientes. Como é bela a vida, quando ela se nos apresenta com as tinturas da compaixão e do serviço. Jamais esqueci a atitude do Dr. Alberto. O seu aconchego fraterno. E o seu abraço amoroso de um cristão e amigo. A Pediatria iniciava a mostrar a outra face. A face que Alberto nos trouxe quando aqui chegou.

Quando em 1808, se iniciou o ensino da Medicina no Brasil, não existia tantas especialidades e subespecialidades, como nos dias de hoje. Especialidades como Cardiologia, hoje possui, inúmeras subespecialidades. Como a ecocardiografia, o intervencionista, o arritmólogo, e outros.

A Faculdade de Medicina que se implantou no Terreiro de Jesus, em Salvador, formava o Médico. Até o dia de hoje, o estudante que conclui, o Curso de Medicina, recebe o diploma de Médico. Esta limitação, que pode assombrar os médicos de hoje, se deve também a limitação da ciência, que foi se expandindo, ao passar do tempo. A criação da Faculdade de Medicina, primogênita, no Brasil, deve a sua iniciação, por Dom João VI, ao médico pernambucano, formado em Coimbra e Montpellier, José Correa Picanço. Nascido na cidade de Goiana, Pernambuco, era filho de um cirurgião barbeiro. O filho desejava ser médico. Cuidar da saúde de seu povo, mas por outros caminhos.

José Correia Picanço, nasceu na cidade de Goiana, Pernambuco, em 1745. Decidiu estudar em Coimbra e fazer doutorado em Montpellier. Ensinava anatomia, em Coimbra, usando cadáveres humanos em vez de animais. Foi convidado a fazer parte da seleta plêiades de médicos que pertenciam, ao Paço Imperial, em Lisboa. E por esta razão teve de vir com Dom João VI, para o Brasil, fugindo das tropas napoleônicas.

Em 2021, estava assistindo a minha irmã Maggy, em Zurich, quando me decidi a ir até Montpellier na França. E na minha visita, fiz questão de ao pisar aquele solo sagrado, venerar todos aqueles que estiveram naquele local cheio de encanto e magia. Notadamente os brasileiros conhecidos. Uma oração, na Basílica que se encontra ao lado, por Correa Picanço que trouxe para o Brasil, a profissão que hoje muitos exercem. As especialidades eram: Clínica Médica, Cirurgia, Ginecologia e Obstetrícia e Pediatria.

Alberto Lima de Sousa, nascido em Natal, no Rio Grande do Norte, era filho de um poeta Nilberto Cavalcante de Sousa e da pianista Alba Lima de Sousa. Alberto era o mais velho de uma família de nove irmãos. Alberto Lima veio para Fortaleza, após terminar com brilhantismo, Residência em Pediatria no Rio de Janeiro. Veio com a recomendação de ingressar na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará. Chegava aqui cheio de sonhos e de planos. A carta era do chefe da residência carioca, que era professor no Rio de Janeiro, e conhecia alguns dos professores de Fortaleza.

Pois o jovem não foi aceito, na escola de Medicina. Logo encontrou um grupo de excelência, no Hospital Geral de Fortaleza, do EX-INAMPS. Quando alguém lhe bate a porta, Deus lhe abre uma porta, maior ainda. Se duvidar abre também uma janela. Alberto chegou em Fortaleza, com conceitos modernos e avançados no campo da Pediatria. A nossa Pediatria, apesar de excelentes professores, era muito acanhada. Sem dúvida o pediatra de grande expressão na cidade, era o Dr. Luiz França Ferreira, que havia feito Fellowship na Universidade de Columbia. Eu tive a oportunidade de conviver muito de perto com o Dr. França. Uma pessoa extraordinária. Um visionário inquieto.

Edificador de projetos que pareciam utopias. Quando aqui cheguei da Residência de Cardiologia, no Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul, gostava muito de Cardiologia Pediátrica. E foi quando Dr. França me convidou para avaliar os pacientes com suspeitas de cardiopatia. Foi uma época, muito feliz, pare meu tirocínio médico. Depois o Dr. França me pediu para cuidar de seus tios já idosos. Foi quando fiquei mais próximo ainda. Porém o Dr. França era mais um líder do que um clínico pediatra.

O Serviço de Pediatria do HGF, era um excelente serviço. Por certo com melhores condições do que o da Faculdade de Medicina. E Alberto encontrou um auspicioso e venturoso ambiente de trabalho. E por coincidência, eu era convidado para dar parecer, ou mesmo para dar palestra, para os residentes da Pediatria e da Obstetrícia. E foi nesta missão que conheci e me encantei com o natalense.

Pela maneira educada, pela simpatia, pelo porte e pelo sotaque potiguar, logo o identifiquei. Ele era irmão do meu colega de seminário, Roberto Lima. Roberto deixou o seminário e eu ainda prossegui. Em 1992 por ocasião do Congresso Eucarístico em Natal, minha mãe Alaide foi para o grande evento, na cidade de Natal. E ela me mostrou a programação do encontro católico. E logo vi o nome do Roberto Lima, como compositor do Hino do Congresso.

Na terra simpática de Câmara Cascudo, Roberto amava os modelos nordestinos de música. Organizava festivais de cordelistas. Foi professor de Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Alberto Lima, uma figura encantadora, acompanhou alguns dos meus pacientes com Cardiopatia. Um destes pequenos pacientes, hoje é médico. Filho de um amigo de infância em Crateús. A criancinha de uma virose, fez um quadro de Insuficiência Cardíaca Congestiva, grave. Gravíssimo. Foi quando tive a mão sagrada do querido Alberto Lima. A luz que ele nos trouxe, foi justamente quando havia uma nova visão sobre o destino da criança.

Caminhávamos para extinção da Poliomielite, como logo foi acontecer. O Brasil conseguiu o feito que nem Sabin esperava.
O Pediatra era sobretudo um puericultor. Puericultura, termo de origem latina. Puer, pueris, significa criança. Um médico, que acompanhava, o desenvolvimento intelectual e físico de seu pequeno paciente. A Puericultura que, estudávamos naqueles anos remotos é a base da Pediatria. A Puericultura é o chão onde a Pediatria brota. Existe de fato o Puericultor. Aquele que cuida do desenvolvimento e crescimento da criança. Sem dúvida alguma, ela é a pedra angular da Pediatria. Acontecia que quando a criança tinha uma complicação, ou uma doença no seu desenvolvimento, o Pediatra chamava o especialista. Alberto Lima cuidava da criança como um todo, poderia até pedir a opinião do especialista, mas ele mesmo era o condutor de cada caso. Tive experiencias maravilhosas com ele. Jamais seremos construtores solitários. Contamos com muitas mãos para soerguer, ou para edificar o edifício da Esperança. Esperança em Medicina, é a certeza de que seu médico, está junto ao paciente. Bem próximo a ele. Bem juntinho dele. Lutando junto. Sentindo junto a dor que não o alcança, mas não o faz contente.

Foi através da Pediatria, que a Cardiologia se fez presente no mundo mágico da ciência do coração. A primeira cirurgia cardiovascular no mundo, foi em novembro de 1944, no Johns Hopkins Hospital, em Baltimore nos Estados Unidos da América do Norte. Foi realizada em uma criança com Síndrome de FALLOT.
Outras intervenções haviam sido realizadas, mas o evento em Baltimore, foi de fato um marco oficial que deu início a esta caminhada vitoriosa para o tratamento das doenças cirúrgicas do coração. Dra. Helen Brooke Tausing (1896-1986), vivia preocupada, com o destino das crianças, portadores de Cardiopatias Cianóticas, que levavam uma vida miserável. Péssima qualidade de vida. Passavam a maior parte dos dias em posição de “Squatting” ou acocoradas. De olhares tristes. Sem participar de uma única brincadeira. A posição, que o inglês, chama de squatting, era uma espécie de defesa. Esta posição aliviava os sintomas decorrentes da cianose. Com isso diminuía o retorno venoso ao coração doente, e melhorava o seu cansaço. Dr. Alfred Blalok estava organizando o serviço de Cirurgia Cardíaca.

A Cardiologia, por muito tempo caminhou, com um anátema. Caminhava com espada de Dâmocles sobre sua cabeça. Nunca conseguiu de se livrar do anátema que o grande cirurgião Christian Bilroth:” o médico que se atrever a tocar no coração será amaldiçoado pela comunidade e pelos seus próprios colegas.” Quanto estrago este anátema infeliz causou a Medicina. Não somente a Cardiologia, mas todo o Universo Médico. Foi uma frase das mais infelizes da ciência dita por um grande profissional médico. Christian Albert Theodor Billroth é considerado o pai da Cirurgia Moderna, pronunciou este anátema: “O cirurgião que tantar suturar uma ferida no coração perderá o respeito da comunidade e dos seus colegas.” (Christian Billroth, 1883). A infeliz frase do grande cirurgião, somente trouxe prejuízo para a Medicina. Porém, Dr. Alfred, seguiu em frente. E foi quando, contou com o auxílio da Dra. Taussen e do gênio do técnico Vivien Thomas. E assim a cirurgia iniciava sua caminha vitoriosa. Dra. Helen neste momento de grande significado para a História da Medicina, fundava uma nova especialidade: a Cardiologia Pediátrica. Muitos nomes grandiosos da Cardiologia, labutavam na seara da Cardiologia Pediátrica. Vejamos: Dr. José Eduardo Rego Morais e Souza, Dr. Mason Sones, Dr. Jonh Kirklin, Dr. Arthur Denton Cooley e outros.
Tenho 4 filhos médicos, mais uma benção do que uma vaidade. Mais uma graça, do que um orgulho. Mais uma preocupação pelas suas responsabilidades do que um ufanismo vaidoso. Alice, que Deus e seus anjos médicos, curaram de uma doença atroz, fez Residência de Pediatria. Hoje faz nova residência. Quer se formar, em oncopediatria. Cuidar dos doentes como foi tão bem cuidada.

Quando frequentava a missa dominical da Igreja da Saúde, sempre me encontrava com o Alberto. Fervoroso, piedoso, católico praticante, deixa uma sublime legado de como ser médico. Como primar pela delicadeza. Como saber compreender a dor do outro. Como entender que mesmo que a mãe, hipertrofie a doença do filho, é preciso tocar e ouvir as fibras amorosas de seu coração. Alberto foi mais além fez escola. Transmitiu não somente conhecimentos. Transmitiu também esperança, para a construção de uma Medicina mais humanizada. Requiescat in Pace. (José Maria Bonfim)

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