Em entrevista no nosso perfil, Guilherme Walraven, fundador da Clínica Caminho da Luz, abre a sua própria trajetória com a dependência química, que foi fundamental para que ele iniciasse esse projeto. A instituição hoje é referência em acolhimento e nasceu de uma história marcada por sofrimento, solidão e cerca de 15 internações, culminando em uma madrugada decisiva aos 22 anos, quando pulou o muro de um hospital psiquiátrico em busca de ajuda.
Nesta conversa, ele revela quando e como surgiu o despertar para deixar de ser paciente e se tornar cuidador, ainda dentro da comunidade terapêutica, e como a dor que quase lhe custou a vida se transformou em missão de salvar outras famílias.


Como surgiu o interesse em construir a clínica? Quando ocorreu esse despertar?
A verdade é que eu nunca planejei construir uma clínica. A Caminho da Luz nasceu da minha própria história, das oportunidades que recebi e das pessoas que acreditaram em mim.
Minha trajetória com a dependência química foi longa e dura, marcada por sofrimento, solidão e aproximadamente 15 internações. Na última, aos 22 anos, cheguei de madrugada a um hospital psiquiátrico e, como não queriam abrir a porta, pulei para dentro. Naquele momento, eu nem pensava verdadeiramente em parar de usar drogas; queria apenas deixar de causar sofrimento à minha família. Deus me deu mais uma oportunidade e, dessa vez, consegui me agarrar ao tratamento.
Depois do hospital, fui para uma clínica. Não fui o melhor paciente do mundo, mas fiz o melhor que conseguia em cada etapa. Ainda como paciente, famílias começaram a me procurar para entender o tratamento de seus parentes, e os terapeutas passaram a contar comigo em reuniões e atividades.
Quando estava próximo de concluir o processo, fui convidado para integrar a equipe. Trabalhei primeiro como voluntário e, depois, por alguns anos recebendo ajuda de custo. Foi quando passei a conhecer o cuidado também pelo olhar de quem acolhe, orienta e estabelece limites.
Após cerca de três anos, saí da instituição, trabalhei em outra clínica e criei um grupo gratuito de ajuda mútua para pacientes, familiares e codependentes, realizado às sextas-feiras na casa da mãe de um amigo. Nesse período, recebi uma proposta para trabalhar em uma nova clínica, com salário e horário que me permitiam cursar Psicologia. Pouco tempo depois, a proprietária decidiu encerrar as atividades, após sofrer um sequestro-relâmpago. Havia três ou quatro pacientes, e suas famílias pediram que eu desse continuidade ao trabalho.
Eu tinha 25 anos, não possuía dinheiro nem experiência administrativa para assumir aquela responsabilidade. Minha avó e meu pai contribuíram com cerca de cinco mil reais, e Pedro Paulo, que havia sido meu paciente e se tornou meu amigo, entrou praticamente com todo o restante. Depois, permitiu que eu colocasse tudo em meu nome e pediu apenas que eu devolvesse o valor investido. Sou profundamente grato a ele e à sua família.
A Caminho da Luz foi construída aos poucos, reunindo o que vivi em tratamentos no Ceará, em Pernambuco e em São Paulo, meus estudos, cursos e o aprendizado com pacientes, famílias e profissionais. Ao longo de 13 anos, passou a ter capacidade para atender até 60 pacientes e formou uma equipe multiprofissional, preservando a essência de olhar cada vida individualmente. Minha recuperação me permitiu buscar ser um filho, irmão, marido e pai melhor. Um dia, precisei pular um muro para pedir ajuda; hoje, procuro manter uma porta aberta para que outras pessoas encontrem um caminho de volta para a vida e para suas famílias.




Quando uma pessoa chega à clínica, como você enxerga essa pessoa?
Antes de qualquer diagnóstico, enxergo uma pessoa com nome, história, família, qualidades e sonhos, mesmo que tudo isso esteja escondido pela dor e pelas consequências da dependência. Não ignoramos os erros nem retiramos sua responsabilidade, mas também não permitimos que alguém seja definido pelo pior período da vida.
Talvez eu compreenda isso porque já cheguei sem esperança. O primeiro olhar do tratamento precisa dizer: sua vida ainda tem valor e existe um caminho possível de volta.
Como se desenha o tratamento oferecido ao paciente?
Não existe receita pronta, porque não existem duas histórias iguais.
Começamos pela escuta e pela avaliação do padrão de uso, da saúde física e emocional, dos vínculos familiares, da realidade social, dos riscos e das forças de proteção. A partir disso, construímos um plano terapêutico individualizado, que pode ser organizado ao longo de até 180 dias, conforme cada caso.
A equipe multiprofissional envolve medicina e psiquiatria, enfermagem, psicologia, serviço social, conselheiros em dependência química e profissionais de apoio. O acompanhamento inclui psicoterapia individual e em grupo, cuidados médicos e de enfermagem, orientação sobre dependência, prevenção de recaídas, trabalho com a família, projeto de vida, princípios dos Doze Passos, apoio mútuo e espiritualidade, respeitando a crença de cada pessoa. O objetivo não é apenas interromper o uso, mas ajudar o paciente a construir uma vida digna e com razões concretas para preservá-la.
Como a família é acolhida durante o tratamento?
Quando um paciente chega, quase sempre existe uma família inteira cansada e machucada chegando com ele.
Oferecemos escuta, orientação e alinhamento para que os familiares compreendam a complexidade da dependência e reconheçam atitudes que, embora nasçam do desejo de ajudar, podem sustentar o problema.
Apoiar não é aceitar tudo, esconder consequências ou assumir responsabilidades do paciente. A família precisa estabelecer limites, melhorar a comunicação, proteger-se emocionalmente e retomar a própria vida. Ela pode amar, apoiar e orientar, mas não consegue realizar a recuperação no lugar do outro.
A família é preparada para receber novamente o paciente em casa? Como se reconstrói a confiança?
A preparação começa antes da alta, com conversas sobre rotina, limites, amizades, dinheiro, medicações, situações de risco, sinais de alerta e estratégias para crises. A confiança não pode ser exigida; precisa ser reconstruída por pequenas atitudes: cumprir horários e promessas, dizer a verdade, aceitar limites e agir corretamente com constância. O paciente precisa compreender o medo da família, e a família não deve transformar o passado em condenação permanente. A reconstrução exige responsabilidade, reparação, verdade, limites e tempo.
Quando acontece uma recaída, como esse momento é visto?
A recaída é tratada com seriedade, mas não como sentença definitiva. Ela não apaga todo o esforço realizado, porém não pode ser banalizada.
Procuramos compreender o que aconteceu antes do uso: isolamento, afastamento dos grupos, conflitos, excesso de confiança, abandono da medicação, antigas amizades ou emoções não enfrentadas. Com essas informações, revemos o plano e definimos se o acompanhamento deve ser intensificado ou se é necessário retornar a um ambiente protegido. A recaída não pode virar desculpa nem vergonha suficiente para impedir o pedido de ajuda. Quem retorna precisa encontrar uma porta de tratamento, não um tribunal.
Como trabalhar a responsabilidade sem transformar culpa e julgamento em obstáculos?
Culpa e responsabilidade não são a mesma coisa. A culpa excessiva faz a pessoa pensar que não tem solução; a responsabilidade permite reconhecer os erros e começar a agir de maneira diferente. Acolher não é ser permissivo: o paciente precisa aceitar consequências, cumprir acordos e reparar os danos possíveis, sem humilhação ou agressão. Compreender as razões de um comportamento não significa justificá-lo. A dependência explica muita coisa, mas não pode justificar tudo. O paciente precisa assumir o protagonismo da própria recuperação.
Existe acompanhamento depois que o paciente deixa a clínica?
A alta não significa que a recuperação terminou. A saída precisa ser planejada, com continuidade do acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico quando necessário, uso correto das medicações, participação em grupos de apoio, identificação de sinais de alerta, estratégias para crises e acordos com a família.
Também incentivamos a retomada gradual dos estudos, do trabalho, das responsabilidades e dos relacionamentos saudáveis. Conforme cada caso, o vínculo permanece por orientações, encaminhamentos, retornos e reavaliações. A clínica deve ser uma ponte, não o destino final.
O que mudaria na forma como a sociedade e as famílias enxergam a dependência? Que mensagem deixaria a quem sofre em silêncio?
Eu retiraria a dependência do campo da condenação moral e a colocaria no campo do cuidado, sem retirar a responsabilidade da pessoa. Em vez de perguntar apenas “Por que ele não para?”, deveríamos perguntar “O que aconteceu e como podemos ajudar?”. A dependência envolve fatores físicos, emocionais, familiares, sociais e ambientais; julgamento, sozinho, não produz recuperação.
A prevenção precisa ser honesta. Não basta dizer ao jovem apenas que a droga é ruim e mata. Ela é perigosa justamente porque, no início, pode oferecer prazer, desinibição, coragem, pertencimento e alívio. O que parece liberdade pode se transformar em necessidade e afastá-lo da família, dos projetos e de si mesmo. Por isso, além de falar sobre drogas, precisamos formar pessoas responsáveis, virtuosas, capazes de cumprir a palavra, respeitar os pais, servir e enfrentar frustrações.
Meu principal conselho é aos pais. Tenho dois irmãos, um médico e outro dentista, criados pelos mesmos pais e sem problemas com drogas. A educação familiar não impediu minha queda, mas foi essencial para que eu me levantasse. Boa criação não é uma vacina, porém valores, bons costumes, fé e formação religiosa podem formar um alicerce para a reconstrução.
Os pais precisam manter diálogo aberto, conhecer as amizades dos filhos e falar com honestidade, mas também ser firmes. Amar não é fazer tudo o que o filho deseja; é saber dizer “não”, ensinar a esperar, assumir responsabilidades e lidar com as consequências. Frustrar, nesse sentido, não é humilhar nem abandonar, mas não retirar todas as dificuldades naturais da vida. Firmeza é presença, coerência, exemplo e regras claras, nunca violência ou autoritarismo.
À família que sofre em silêncio, digo: não espere perder tudo para procurar ajuda. O silêncio aumenta o isolamento. Estabelecer limites não é abandono; muitas vezes, é a forma mais difícil e verdadeira de amar. O amor é indispensável, mas não substitui tratamento. Ninguém deve ser condenado para sempre pelo pior momento da vida. Enquanto houver vida, haverá possibilidade de mudança.
Nos indique um livro, uma série e um filme.
Como livro, indico a Bíblia Sagrada, por falar de queda, sofrimento, perdão, responsabilidade, esperança e recomeço. A fé em Deus me ajudou a compreender que minha história ainda não havia terminado e que uma pessoa não precisa ser definida para sempre por seus erros.
Como série, indico Dopesick, que mostra como a dependência também pode começar em um consultório, com uma receita e a confiança em um medicamento, além dos efeitos de interesses econômicos e decisões institucionais na crise dos opioides.
Como filme, indico Querido Menino, uma história sobre o amor entre pai e filho, mas também sobre recaídas, cansaço, impotência e limites. Ele mostra que podemos amar profundamente alguém, mas não realizar a recuperação em seu lugar.










































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































