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Bob Mackie: o homem que colocou lantejoulas, humor e fantasia no centro da moda

Poucos estilistas conseguiram fazer da extravagância uma assinatura tão reconhecível quanto Bob Mackie. Lantejoulas, penas, brilho, transparências, bordados, silhuetas dramáticas e uma boa dose de humor fizeram parte do vocabulário visual do designer americano, que morreu nesta segunda-feira, 14 de setembro de 2026, aos 87 anos. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Mackie não apenas vestiu celebridades: ajudou a construir a imagem de algumas das maiores estrelas da televisão, da música e do cinema. Cher, Carol Burnett, Diana Ross, Tina Turner, Elton John, Madonna, Judy Garland, Liza Minnelli e Marilyn Monroe estão entre os nomes ligados à sua trajetória.

Nascido em Monterey Park, na Califórnia, em 24 de março de 1939, Robert Gordon Mackie começou a desenhar ainda jovem e estudou no Pasadena City College e no Chouinard Art Institute, embora não tenha concluído os cursos. Sua entrada profissional em Hollywood aconteceu no início dos anos 1960, quando passou a trabalhar como ilustrador e desenhista para grandes nomes do figurino cinematográfico. Entre seus primeiros mestres estavam Edith Head e Jean Louis, dois dos nomes mais importantes da indústria. Foi nesse ambiente de estúdios, estrelas e grandes produções que Mackie começou a entender que roupa poderia ser muito mais do que roupa: poderia criar personagem, atitude e espetáculo.

Um dos primeiros momentos históricos de sua carreira aconteceu em torno de Marilyn Monroe. Em 1962, Mackie desenhou o esboço do vestido usado pela atriz na famosa apresentação de “Happy Birthday” para o presidente John F. Kennedy. A peça, criada por Jean Louis, ficou conhecida pelo efeito de transparência e pelo brilho das aplicações. O trabalho colocou o jovem desenhista no caminho de uma carreira em que moda e cultura pop estariam praticamente sempre misturadas.

A grande virada veio alguns anos depois, quando Mackie passou a criar figurinos para televisão e shows. Em 1966, Mitzi Gaynor o chamou para desenvolver os figurinos de seu espetáculo em Las Vegas e de especiais de televisão. Pouco depois, Carol Burnett e o produtor Joe Hamilton o contrataram para o recém-lançado “The Carol Burnett Show”. Mackie permaneceu ligado ao programa durante seus 11 anos de exibição e chegou a produzir cerca de 50 figurinos por semana para elenco e convidados. O resultado foi uma combinação rara de sofisticação, humor e teatralidade.

Foi nesse universo que nasceu uma das criações mais divertidas de sua carreira: o famoso vestido de cortina usado por Carol Burnett na paródia “Went With the Wind!”, inspirada em “Gone with the Wind”. A roupa tinha inclusive a haste da cortina sobre os ombros. A piada funcionava porque Mackie entendia perfeitamente de glamour, e justamente por isso conseguia brincar com ele. Seu trabalho nunca precisou escolher entre beleza e humor. Para ele, os dois podiam dividir o mesmo palco.

Mas foi com Cher que Mackie encontrou aquela que se tornaria sua grande musa. A parceria começou na televisão e atravessou décadas, passando por programas, turnês, apresentações e tapetes vermelhos. O estilista ajudou a transformar a imagem da cantora em uma mistura de diva, showgirl e personagem de fantasia, com figurinos que exploravam transparências, recortes, penas, pedrarias e enormes acessórios de cabeça. Um dos momentos mais lembrados aconteceu no Oscar de 1986, quando Cher apareceu com um visual preto cheio de recortes, barriga à mostra e um gigantesco cocar de penas. Era praticamente impossível olhar para aquela roupa e não olhar para Cher.

A parceria entre os dois foi tão importante que Cher se tornou uma espécie de tela perfeita para a imaginação de Mackie. O designer criou centenas de looks para a cantora, incluindo figurinos para televisão e shows em Las Vegas. A relação atravessou gerações e continuou muito depois do auge dos anos 1970 e 1980, chegando às residências da artista em Las Vegas e a apresentações mais recentes.

O trabalho de Mackie, porém, nunca ficou restrito a Cher. Diana Ross, Tina Turner, Barbra Streisand, Bette Midler, Elton John, Madonna, Liza Minnelli, Judy Garland e outras grandes estrelas também passaram por seu universo visual. Para Elton John, por exemplo, criou um extravagante uniforme inspirado no time de beisebol Los Angeles Dodgers para uma apresentação em 1975. Para Madonna, assinou o vestido inspirado em Marilyn Monroe usado no Oscar de 1991. Décadas depois, a mesma estética voltaria aos holofotes quando Sabrina Carpenter usou uma criação de Mackie inspirada naquele visual no VMA de 2024.

O reconhecimento veio em números impressionantes. Mackie recebeu nove prêmios Emmy, teve três indicações ao Oscar de Melhor Figurino e foi incluído no Television Academy Hall of Fame em 2002. Entre suas indicações ao Oscar estão “Lady Sings the Blues”, “Funny Lady” e “Pennies from Heaven”. Em 2019, também recebeu um Tony pelo trabalho em “The Cher Show”, musical que contou com mais de 450 figurinos desenhados por ele.

Embora tenha ficado conhecido principalmente como figurinista, Mackie também construiu uma trajetória no mercado de moda. Em 1982, lançou sua coleção de prêt-à-porter e, no mesmo período, começou uma das relações mais curiosas e duradouras de sua carreira: a parceria com a Barbie. A boneca passou a funcionar como uma espécie de miniatura do seu universo criativo, permitindo que o exagero que ele colocava nos palcos chegasse também às coleções de moda para colecionadores.

A relação com a Barbie começou oficialmente nos anos 1980 e ganhou força especialmente na década de 1990. Ao longo dos anos, Mackie criou mais de 20 bonecas, muitas delas com vestidos que pareciam pequenas versões de alta-costura de fantasia. A Gold Barbie, lançada em 1990, é um exemplo clássico: o vestido tinha cerca de 5 mil lantejoulas douradas costuradas à mão, acompanhado por uma estola de plumas brancas e um elaborado adereço de cabeça.

O universo Barbie de Mackie também incluiu personagens inspiradas em diferentes culturas e referências artísticas, além de coleções de gala e fantasias. A proposta era bem diferente da Barbie cotidiana: eram bonecas pensadas como pequenas obras de espetáculo, sofisticadas e claramente direcionadas ao público colecionador. O próprio designer definia essas criações como Barbies glamorosas, sofisticadas e imaginárias, mais próximas de uma fantasia de alta-costura do que de uma representação comum do cotidiano.

A parceria continuou décadas depois. Em 2023, a Mattel lançou uma Barbie Holiday Angel assinada dentro do universo de Mackie, com vestido prateado, faixa vermelha, asas e elementos brilhantes. Em 2024, veio outra versão da coleção, com vestido verde-esmeralda, grandes laços, lantejoulas e um elaborado adereço de cabeça. Já em 2026, a Barbie Bob Mackie Pink Glamour retomou a estética clássica do estilista com vestido longo brilhante, casaco dramático, cabelo loiro platinado e acessórios exagerados.

Entre as criações mais divertidas de Bob Mackie para a Barbie está a The Brazilian Banana Bonanza Barbie, lançada em 2005 como parte da coleção inspirada no glamour e na fantasia do designer. A boneca aposta em uma leitura bem-humorada e exuberante do imaginário brasileiro, com um visual cheio de referências tropicais, brilho e elementos exagerados, justamente o tipo de estética que transformou Mackie em um dos nomes mais reconhecíveis da moda para bonecas. O look combina tons vibrantes, detalhes dourados e uma composição teatral que transforma a Barbie em uma espécie de fantasia de carnaval tropical, mostrando como o estilista gostava de brincar com culturas, cores e personagens para criar peças que fossem imediatamente reconhecíveis e, acima de tudo, divertidas.

É justamente aí que o legado de Bob Mackie fica mais interessante. Ele não criou apenas roupas bonitas para pessoas famosas. Criou imagens. Em uma época em que televisão, música e moda começaram a se misturar cada vez mais, Mackie percebeu que uma estrela precisava de um visual capaz de ser reconhecido mesmo em uma fotografia congelada. Seus figurinos tinham esse poder: eram exagerados o suficiente para chamar atenção, mas cuidadosamente construídos para contar alguma coisa sobre quem os vestia.

Seu trabalho também ajudou a legitimar uma ideia que hoje parece bastante natural: celebridades podem ser plataformas de expressão fashion. Antes de stylist virar uma profissão tão presente na cultura pop, Mackie já entendia que o figurino podia transformar uma cantora em personagem, uma atriz em ícone e um programa de televisão em referência visual. Por isso, sua influência aparece não apenas nos arquivos de Hollywood, mas também em artistas de gerações posteriores que continuam revisitando seu trabalho. Miley Cyrus, Sabrina Carpenter, Zendaya e outras estrelas já usaram ou homenagearam peças de sua autoria.

No fundo, Bob Mackie nunca pareceu muito interessado em fazer a moda se comportar. Seu talento estava justamente em entender que roupa também pode ser fantasia, espetáculo, humor e provocação. Ele colocou mulheres poderosas em figurinos que exigiam presença e criou para suas musas uma estética em que desaparecer definitivamente não era uma opção. Entre penas, cristais, lantejoulas e enormes silhuetas, construiu uma linguagem que continua reconhecível décadas depois. E talvez seja esse o maior sinal de que um estilista virou parte da história: quando sua assinatura permanece mesmo depois que a música acaba, as luzes se apagam e a roupa deixa o palco.

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