Um arrepio me percorreu o corpo quando notei que lia pela primeira vez algumas palavras ouvidas e repetidas nos períodos de férias e feriados. O livro era o Outros Cantos, da Maria Valéria Rezende, que li pela primeira vez em 2016, buscando beber das palavras que ouvi das vozes que a morte calou. A primeira delas a romper a oralidade foi camarinha, que significava ali um quarto pequeno, de dormir.
Havia duas camarinhas da casa dos meus avós e ambas não serviam para o sono. Em uma, eram guardadas as mangas, os beijus, biscoitos e outros mantimentos. A outra escondia os tesouros da minha avó, como colchas de cama, vestidos mais alinhados, redes e toalhas de mesa, a maioria presenteados pela multidão de filhos, netos e afilhados.
Revi a palavra camarinha como quarto de dormir alguns anos depois no livro Os sinos de Encarnação, da cearense Ângela Gutiérrez e há dois anos, quando li Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. Ali, como na casa dos meus avós paternos, a camarinha é o espaço ou cômodo da casa onde se guardam objetos de valor íntimo, mantimentos ou baús da família. É no espaço da camarinha da avó Donana que as irmãs Bibiana e Belonísia encontram a misteriosa faca que desencadeia o acidente central da trama.
Só fui entender camarinha como quarto de dormir com a convivência com minhas primas que moravam perto do meu avô. Na camarinha delas, uma velha rede transformada em lençol sem os punhos fazia o papel de porta para isolar o cômodo do corredor onde estava o pote de barro da água. Não havia móveis, mas apenas as duas redes que minhas primas dormiam. Os irmãos homens dormiam na sala, meus tios na outra camarinha, também sem cama.
Nos tempos do meu pai criança também era assim. Os homens dormiam na sala, meus avós no quarto entre a sala e a cozinha. As irmãs mulheres, na camarinha. Todos nas redes, enroladas de volta, ao amanhecer, nos grossos ganchos de madeira das paredes, igualmente grossas. Dessa forma, as duas camarinhas devem ter mudado de função quando as filhas mulheres saíram para se casar.
Depois de minha outra tia sempre falar que precisava desenlear os cabelos da minha prima, também me arrepiei ao ver esse modo de falar em palavra escrita, mais adiante na leitura do livro Outros Cantos. Assim como o “desasnar”, que é aprender, ficar desenrolado e aqui ouvi como “desarnar” porque muitas palavras soam com o “r” virando “s”. Meus tios, ao dizer que algo ocorreu pouco tempo depois, usam o “de com pouco” ou “com pouca”, assim como os personagens criados nessa obra. Espantei-me com a oralidade virando trecho de livro e a caneta está sempre pronta para grifar por onde eu vir essas palavras.
Maria Valéria Rezende conhecia bem os sertões do Nordeste porque viveu em várias cidades isoladas nos seus tempos de juventude. Hoje mesmo mora em João Pessoa, na Paraíba. Em Outros Cantos, a protagonista volta ao distrito em que foi professora passadas várias décadas e percebe que tudo mudou de um jeito estranho. Motos como o transporte principal, antenas parabólicas em casebres, o plástico como o material dominante na decoração. O moderno chegou com força. No entanto, ela questiona qual a beleza disso tudo. Aparentemente, não há.
Por algum motivo que desconheço, peguei esse jeito de morar e de falar em um tempo que as mudanças já deveriam ter chegado. Porém, aquele lugarejo continuava muito parecido como nos tempos dos anos 1970, que é quando o livro de Maria Valéria Rezende se desenvolve. Parou no tempo por muitos anos.
Hoje, a impressão que tenho é que o acelerar das mudanças recentes pode roubar até mesmo a beleza natural daquela terra abençoada por tantos mananciais. Os condomínios de luxo e resorts pipocam por todos os distritos, com nomes em inglês que nada tem a ver com o lugar. Ainda bem que o que a gente vive e lembra, ninguém rouba.






































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































