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O glamour das penas de avestruz ganha um lado sombrio na alta-costura

Elas aparecem em vestidos dramáticos, capas volumosas, acessórios e produções que parecem saídas diretamente de um desfile de alta-costura. As penas de avestruz carregam há décadas uma imagem de luxo, movimento e extravagância na moda. Mas uma nova investigação coloca esse glamour sob uma luz bem menos sofisticada ao denunciar as condições em que parte desse material estaria sendo retirada de aves na África do Sul.

O alerta foi divulgado pela organização World Animal Protection a partir de uma investigação realizada em parceria com a Collective Fashion Justice. Segundo as entidades, registros feitos em fazendas comerciais e unidades de processamento de penas no país mostram avestruzes sendo imobilizadas para a retirada das penas, inclusive com cortes e extração de materiais ainda em crescimento, sem o uso de analgésicos. As organizações afirmam que algumas aves passam pelo procedimento repetidamente.

O relatório, batizado de “Blood Feathers”, ou “Penas de Sangue”, também questiona a ideia de que as penas utilizadas pela indústria da moda seriam simplesmente recolhidas quando caem naturalmente. De acordo com a investigação, avestruzes não possuem uma temporada de muda como algumas outras aves, e diferentes métodos são empregados para retirar as penas. A Collective Fashion Justice afirma ainda que investigações anteriores documentaram casos de depenagem de aves vivas na África do Sul.

E o assunto interessa diretamente ao universo fashion. A África do Sul responde por cerca de 75% do mercado mundial de avestruzes e abastece uma cadeia que envolve carne, couro e penas. Segundo a investigação divulgada pelas organizações, fazendas e unidades de processamento sul-africanas fornecem penas para grandes nomes do mercado de luxo, entre eles Yves Saint Laurent, Louis Vuitton, Dior e Chanel, além da gigante de fast fashion Shein. A menção às marcas aparece no relatório e nas reportagens que repercutiram a denúncia; isso, por si só, não significa que cada marca tenha conhecimento ou responsabilidade direta pelos métodos descritos na investigação.

A polêmica ganha ainda mais força porque as penas vêm ocupando justamente o espaço de elementos que a moda tenta repensar. Enquanto o uso de peles de animais é cada vez mais questionado por consumidores, marcas e movimentos ligados à moda responsável, as penas continuam aparecendo como um detalhe aparentemente mais leve e inofensivo. A investigação argumenta que essa percepção pode esconder uma cadeia de produção igualmente problemática.

Além das penas, a indústria sul-africana de avestruzes também está ligada à produção de couro e carne. Dados citados pela World Animal Protection apontam que mais de 150 toneladas de penas de avestruz foram exportadas pela África do Sul na temporada 2024-2025, enquanto aproximadamente 150 mil aves foram abatidas para os mercados de penas, carne e pele.

A discussão, portanto, vai muito além de uma única tendência de passarela. Ela coloca em xeque uma pergunta que a moda vem sendo obrigada a encarar com cada vez mais frequência: até onde vai o luxo quando a matéria-prima envolve sofrimento animal?

Com tecidos tecnológicos, fibras alternativas e materiais desenvolvidos para reproduzir volume, movimento e textura, a própria indústria já possui caminhos para criar o efeito visual das penas sem necessariamente depender de matéria-prima de origem animal. Para as organizações responsáveis pela denúncia, esse é justamente o momento de repensar o que significa chamar um material de “luxuoso” quando sua cadeia de produção pode envolver sofrimento.

No fim das contas, talvez o maior desafio da alta-costura não seja criar a próxima peça espetacular, mas descobrir como manter todo o impacto visual que faz a moda sonhar sem esconder aquilo que acontece muito antes de a roupa chegar à passarela.

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Por minha vasta convivência profissional durante anos com a sociedade de Fortaleza, aprendi a captar notícias em suas mais preciosas e seguras fontes. Por perceber que no contato com esses registros sociais estava a fonte de minha vocação, resolvi criar meu próprio espaço na mídia virtual, reunindo uma equipe capaz e competente.

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